A itinerância
Dentre nossas ações nos espaços fora dos muros do Hospital Psiquiátrico Pinel, realizamos diversas atividades, uma delas na 2º Mostra Nacional de Práticas em Psicologia, que aconteçeu no mês de Setembro de 2012, no pavilhão do Anhembi em São Paulo, tendo a apresentação e exposição do documentário “Trupinel” realizado a partir do processo de investigação e criação dos núcleos de pesquisas realizados no CAISM Pinel desde 2008. A Mostra fez parte das comemorações dos 50 anos da Psicologia como profissão no Brasil, o evento foi um grande espaço de intercâmbio sobre as práticas em Psicologia, onde durante três dias foram debatidos, discutidos e projetados as experiências construídas todos os dias pelos pesquisadores de todo o Brasil. O que chamou bastante a atenção durante a Mostra foi a diversidade e riqueza das ações desenvolvidas em todo o país, sendo elas dialogadas e intercambiadas em um mesmo espaço, o que evidenciou a grande e complexa expansão do conhecimento da psicologia em diálogo com as mais diferentes linguagens, tendo os atuantes da área utilizando a linguagem da fotografia, da música, do vídeo e documentário como mais um elemento de atuação na prática, o que gerou diferentes formas de expressão e investigação, resultando em infinitos ponto de vista e atuação, os quais em muitos casos ainda não temos a dimensão de como atinge no dia a dia de seus idealizadores.
O documentário apresentado pelo grupo “Trupinel”, foi uma pequena mostra de um amplo trabalho que estamos desenvolvendo, que busca narrar a história desses quatro anos de atividades no Pinel, passando pelas primeiras experiências do grupo nos núcleos de pesquisas desenvolvidas em 2008, 2009 e 2011, transitando pelos encontros do Cine Pinel em debate, realizados em 2011, e diferentes momentos dos grandes e pequenos episódios no cotidiano do grupo e do CAISM Pinel.
Sobre este documentário “Trupinel” projetado na 2º Mostra foi um dos trabalhos que mais dialogou e apresentou o trabalho dos Núcleos. Quando inicialmente recebemos o edital da mostra, toda uma rede de pessoas participou de alguma forma do processo, desde o projeto inicial de montagem do documentário, até as articulações com o grupo e com o diretor do Pinel. Na época de inscrição do trabalho, enviamos um e-mail para uma psicóloga responsável pelas nossas atividades no Pinel, e ela responde, “Olá. Favor enviar o vídeo para ser avaliado por nosso Diretor, Dr Eduardo. Att”. Para nós do grupo, conseguir com que o diretor do Hospital assistisse o nosso trabalho já era de grande importância, já que passávamos por um momento delicado em relação ao uso do espaço. Alguns dias se passaram. Tínhamos grandes chances de o diretor aprovar o trabalho, mas também, o de não aprová-lo, e se assim fosse, todo nosso trabalho iria por “água abaixo”. Alguns dias tensos passaram, pois nesta altura já havíamos inscrito o trabalho na Mostra, e naquele momento aguardávamos o resultado. Pelos cálculos de dias de quando lemos o edital, as datas dariam todas cravadas, em cima do tempo, só que não esperávamos que o documentário passasse pela avaliação do diretor do Hospital, o que era bem pertinente, pois estaríamos representando para todo o Brasil, o trabalho e o nome do CASIM Pinel, alguns dias antes de ser aprovado pela Mostra o diretor responde “Olá, Marcelo. Dr. Eduardo assistiu ao vídeo, está aprovado para inscrição”. Daquela resposta em diante só esperávamos a confirmação de nossa participação na Mostra, coisa que durou apenas um dia após ler o e-mail, “A comissão de programação da 2º Mostra, tem a honra de informar que a proposta intitulada “Trupinel” foi aceita para ser apresentada na 2º Mostra”. Ao assistir este mesmo documentário que seria projetado na Mostra, um ex-integrante do grupo responde, “Ver e rever os vídeos "registros" da Trupe, me emociona, esse coletivo buscando respostas dentro desse mundo cheio de hipocrisia e hostilidade, abrindo espaço a todos que desejam participar e de alguma dar vozes aos excluídos. sinto muitas saudades nestes quase três anos longe de vocês! eu distante de corpo mas próximo no pensamento. beijos a todos!” e na mesma publicação um integrante responde “Ao Tentarmos dar vozes aos excluídos, alguém certamente sempre vai estar mudo enquanto você estiver ausente.” Ao ler e reler estes comentários e diversos outros, leva a nos perguntarmos como se caracterizou nosso processo de criação individual e coletivo com a realidade de um hospital psiquiátrico? Quais mensagens foram transmitidas através dos sentimentos, gestos, palavras e olhares? Como foi buscar novas formas de convivência, proximidade, intimidade e comunicação, neste contato e diálogo com o outro? Foram e ainda são, perguntas que nos acompanham nesta trajetória labiríntica de descobrimento de si e do mundo.
Trabalho realizado pela II Trupe durante a 2º Mostra Nacional de Práticas em Psicologia.
CINE PINEL EM DEBATE
O CAISM Philippe Pinel está promovendo um ciclo de oito encontros que associam Cinema e práticas de Humanização, sob a temática da Saúde Mental.
Evento aberto à comunidade. Entrada Franca.
Cine Pinel em Debate
Preparação...comunicação...ação...pensar as ações. Dialogar, discutir com o pinel a proposta técnica do encontro. Emails, telefonemas, contato, encontro...
Nas primeiras comunicações sobre o Cine pinel em debate, foram apresentadas pela diretoria do Pinel as propostas dos encontros.
“ O evento acontecera duas vezes por mês com apresentação de um filme que abordara questões temáticas de Saúde Mental. Ao término, será aberto um debate para discutirmos e repensarmos nossas atuações, construir novos saberes e adotarmos atitudes mais humanizadas. Propomos assim ampliar a discussão não somente entre profissionais de saúde mental, mas promovendo a participação da comunidade.”
Nesses primeiros contatos, foi conversado da disponibilidade de participarmos do evento como apoio audiovisual dos encontros, tendo a proposta de filmar o encontro para assim buscarmos caminhos para uma ação coletiva a qual se desmembrariam a partir do registro e montagem desses encontros, para todos os setores do hospital e da comunidade.
Semanas antes do primeiro encontro do dia 13 de Abril, buscamos formas de captação de sons e imagens. Mantemos o contato com a equipe técnica do hospital, para assim mantermos um trabalho em conjunto a equipe dos funcionários, e assim um dialogo mais próximo das idéias e dos materiais técnicos que utilizaríamos. No dia 12 de abril, após esses primeiros diálogos, fomos ao Anfi-teatro (local do encontro) testamos os aparelhos de som e vídeos com o Begas, responsável pelo espaço.
No dia do encontro, 13 de Abril de 2011, foi projetado o filme “Janela para a lua” de Alberto de Simone, o filme conta a história de um Astrônomo que conhece um capataz nas obras de hospital psiquiátrico, e acaba se (re) conhecendo seu modo de ver o mundo ao tomar consciência das coisas simples que os loucos valorizam. Ao término do filme acontece o debate a partir de algumas situações projetadas pelo filme. O que trouxe grande envolvimento pelas pessoas presentes, relatando suas percepções do filme e colocando o debate de suas praticas cotidianas envolvendo a questão da saúde mental, tanto os funcionários que trabalham no Pinel, quanto atuantes de outros espaços. Por haver grande quantidade de participantes que fazem parte da equipe de funcionários do Pinel, permitiu que as discussões levantadas pelo filme, fossem colocadas nas vivencias cotidianas das praticas do hospital.
Durante a semana após o encontro, capturamos e montamos uma versão de vídeo do debate em dialogo com a diretoria do Pinel. Neste contato esta sendo estudadas formas de construção e montagem do vídeo, discussões que permeiam em levantamentos teóricos sobre alguns pontos levantados a partir do debate, assim como uma contextualização maior da situação da saúde-mental hoje.
Após este primeiro encontro, tivemos mais dois debates, os quais estão sendo pesquisados e investigados formas de construções desses vídeos, já que não trabalhamos com um roteiro, mas a partir das imagens captadas, criando uma compilação das discussões, na tentativa de criar um sentido mais apropriado do encontro, para assim, retornar as discussões do debate para um entendimento maior dos questionamentos, frustrações, sugestões e informações .
Com o término da programação do “Cine Pinel em Debate”, entramos no período de pesquisa e análise dos conteúdos investigados e discutidos nos encontros, o que gerou um certo “caos” de informações no momento da montagem, oque foi muito produtivo, pois conheci um outro Hospital Psiquiátrico Pinel, onde a visão das pessoas que trabalham no hospital, foram apresentadas, discutidas e refletidas. Percebi as necessidades das pessoas em relatar, expor suas dificuldades, suas frustações e alegrias em um universo complexo e contraditório de ações, mas que juntos, a partir dos encontros buscavam alternativas para este mundo que envolve as experiências e o debate da saúde mental.
Criação dos videos/documentários “Cine Pinel em Debate”
Uma Janela para a Lua – Doc. 39min.
Bicho de Sete Cabeças – Doc. 30min.
A troca – Doc. 40min.
Uma Mente Brilhante – 30min.
Uma Janela para a Lua - em Cine Pinel em Debate
Após a finalização dos videos/documentários, realizamos uma compilação dos quatros trabalhos em uma mídia de DVD, a qual construímos uma capa com informações e descrições dos trabalhos, sendo realizadas 10 cópias para ser entregues nas enfermarias, convívio, NIA, moradia entre outros setores do pinel.
Carnaval Pinel 2011
Uma de nossas participações significativa neste inicio de ano, foi de interagirmos junto ao bloco de carnaval “Pé pra Fora”, bloco formado aqui no Pinel tem uns 8 anos. Fomos convidado pela Mira, coordenadora técnica do Pinel. A composição do enredo é realizada pelos próprios funcionários e teve como tema “De volta pra casa”. A concentração do bloco foi em frente ao Caps, onde boa parte dos funcionários, internos, estagiários e amigos se preparavam junto a fina chuva alegórica que caia, os fantasiados se perdiam junto ao som da bateria da escola de samba do Perus. Nós do grupo também fantasiados com mascaras, cornetas, câmeras nos perdemos junto ao bloco.
Como extensão do bloco, realizamos durante a semana, algumas fotomontagens com as imagens que fotografamos no dia, então, colamos em uma cartolina essas imagens e anexamos em algumas paredes pelo Pinel, lugares onde se tem uma maior visibilidade e movimentação de pessoas. Pensamos assim, intervir no espaço com as imagens das próprias pessoas que freqüentam esse espaço, além de dar um caráter anônimo a intervenção, já que não colocamos nenhuma assinatura.
Participarmos desses eventos que o Pinel promove, são momentos de quebra de rotina, desconcentração, participação, conversas, risadas, falas, momentos de se desligar das relações trabalhista, se envolvendo com as mesmas pessoas neste novo tempo que é criado, fantasiado, imaginado, além de trazer conversas e situações que permitem que as relações sejam mais significativas.
A arte como estímulo à capacidade criadora do ser humano
Inscrevemos no mês de Maio de 2011, uma poesia do Getulio (interno do Pinel) para participar do premio Arthur Bispo do Rosário...
A arte como estímulo à capacidade criadora do ser humano
O prêmio Arthur Bispo do Rosário chega em 2011 a sua sexta edição. O certame homenageia o sergipano que viveu cinco décadas como interno, diagnosticado como esquizofrênico, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. No início dos anos 60, Bispo do Rosário trabalhou como um “faz tudo” em uma clínica pediátrica, morando isolado no sótão, e desenvolveu grande parte de sua produção artística. Em 1969, voltou para a Colônia, onde ficou até sua morte, em 1989.
Iracema você céu e real – Getulio Pedro
Não quero aparecer, mas ser um realista, quando encontrei com você, na avenida paulista.
Sou coerente sincero e franco, não tenho teu endereço. Meu sangue em um lenço estanco, tua honra não tem preço.
Iracema de olhos verdes, desses lindos matagais. Conte comigo na tribo, me apresentando aos seus pais.
Se um dia acontecer, de eu contar-lhe minha historia. Só assim você vai saber, que caminho para a vitória.
Um dia ela passou, a caminho do mar, no meio de outras meninas, que estavam a enamorar. Iracema você é real.
Lembrei-me do dia do índio. Quero aqui te homenagear. O teu dia que és ainda, a deusa musa do poeta Alencar.
Iracema você é ternura angelical. Que as lagrimas desfazem, em seu semblante com maquiagem. Não quero ver você chorar.
Se um dia acontecer, de eu voltar em Ipanema. E nessas águas banhar, sentir aquela maresia teus lindos lábios beijar, e lhe entregar esta poesia.
Iracema você é real. Iracema você é real.
Andei pela mata virgem. Com a minha sorte a eslavo. Quem dera tu soubesse, que meus pais foram filhos de escravos.
Iracema você é real. Iracema você é real.
Não aparecer o ínfimo, que o intimo te revela, traduzindo o que é bonito, e o imensurável que revela. Você é uma estrela do céu. Num manto de veludo negro. Sabor da língua ou mel. Que soube manter em segredo. Você me entende e agradeço, digo-lhe muito obrigado, embora eu sei não mereço, o seu corpo aveludado.
Pretendo ver sempre solido, esses nosso encontro valido. Com meras recordações tardias, ver encantar-te em rosto a poesia. Viver pensando incessantemente, como voar de asa-delta. Que mera que eu não consegui, fazer as imagens esbeltas. Te olhar de cima meiga Iracema, descontraída na praia de Ipanema, ao murmúrio das ondas turbulentas, de um guarda sol a vejo, com uma fruta doce e suculenta. Resolvi deixar-te ser feliz. E me ausentei de sua vida. Fui embora para Paris, e la curei minha ferida.
Te acho nesse labirinto, que aqui revela o que por você eu sinto. Você acende de paixão, uma chama no escuro. Nome que eu vi quando olhei, que estava escrito no muro. Conheço a mata virgem, não tenho passos vacilantes, mas sei que tenho vertigem, nessa selva de pedra gigante.
Queria colocar no seu dedo, um anel de esmeralda. Casar contigo em segredo, na igreja de vestido com vel e grinalda.
Queria pintar um quadro, retratando a sua fisionomia, guardar de lembrança em meu quarto, a sua fotografia.
Existe uma ponta de ciúme, como se fosse escalar o cume de uma montanha, e o silencio de escalar, é a façanha.
Hoje ainda reconheço, em uma cadeira de rodas. Sinto um imenso pesar, e venho lhe visitar. Cenário feito de sonhos, para um filme de um drama, onde o ator é o aventureiro, querendo atingir a fama.
Hoje é tudo diferente, do que quando lhe conheci. Procuro ser coerente, e dizer que te perdi. Uma lagrima após a outra, você me viu chorar. De dedal em dedal, dava para encher o mar.
Há, mais se um dia ela voltar, meu sofrimento vai ter fim, e de alegria vou chorar, que ela volte para mim.
Sabia do seu destino, quando foi para o Rio de janeiro, e o triste atropelamento, na garupa de um motoqueiro.
Ladrão de sentimentos roubados, tristeza, angustia e dor. Leitura de pensamentos. Beijos e caricia do amor.
Segregarei aos seus ouvidos, uma filosófica frase, estarei sempre contigo, em meio ao Oasis.
...encontros,
Desde nossa chegada ao Pinel (2008), sempre tivemos funcionários ou pacientes que acompanham o trabalho do grupo e assim contribuem de alguma forma com o processo de ocupação, seja com palavras, companhias ou brincadeiras. Outro dia conheci Luiz, um funcionário que morou na casinha (a qual utilizamos hoje em ensaios) a mais de trinta anos. Seu pai, um antigo funcionário do Pinel, criou seus filhos aqui dentro. Dentre as diversas histórias que Luiz conta do espaço, fala da época em que Pirituba era só mato, e os carros de hoje, carroças, "tempos bons quando colecionava vinil, conheço tudo dos anos 60 e 70, naquela época, pra você curtir uma festa, se tinha quer ir lá pro centro da cidade, ajuntava aquele bando, e ia", então pergunto se ainda tem a coleção de discos, "empresta pra um, empresta pra outro, vendi um porção, na hora a gente não percebe que aquilo faz parte da gente né, quando você vai si tocar, já passou o tempo", e as bandas? imediatamente ele escreve em uma folha nomes de bandas e musicas, assim como, Manfred Mann, Lay, away, To sir with Love, Memorie’ s Forever, Proper Stranger, Every body is talking, The Walkers, Band Aid, e mais uma centenas de musicas e bandas que eu nunca ouvi falar e que tanto tocou na casinha em ruínas, a qual hoje investigamos. (Marcelo - agos/2010)
Luiz (funcionário do Pinel) em depoimento fala de algumas fases da vida, de quando morou na casinha, a mesma em que hoje são apresentadas os Detritos em ensaio
Núcleos
Para os Núcleos de Pesquisa, a experiência, ao contrário das vivências cotidianas, une a memória coletiva e individual à reflexão sobre os fatos, construindo uma cultura política e pedagógica capaz de dotar o sujeito individual de um sentido mais aguçado de seu lugar no mundo, de tal modo que possamos começar novamente a entender nosso posicionamento como sujeitos individuais e coletivos e recuperar nossa capacidade de agir e lutar, que está, hoje, neutralizada pela confusão espacial e social.
Os núcleos têm como objetivo fazer com que seus participantes, de forma lúdica e sensível, reflitam e atuem criativamente sobre conteúdos relacionados à realidade social e ao projeto do grupo
A experiência é assim a base de qualquer narrativa, articulando o sujeito e o mundo, configurando a realidade de forma a dotá-la de sentido. Os Núcleos buscam despertar em seus participantes EXPERIÊNCIAS, através do estímulo à criação de narrativas. Narrativas, orais, inventadas ou não, narrativas musicais, narrativas visuais, narrativas corpóreas, através da linguagem teatral
Intro Núcleos - 2011
Demais atividades nas páginas;
www.esferalabirintica.blogspot.com/p/nucleo-video-2011.html
Núcleo de Vídeo
http://trupedechoque.com.br/video/
Núcleo de música
http://trupedechoque.com.br/musica/
Núcleo de Artes Visuais
http://trupedechoque.com.br/artesvisuais/
FESTA JUNINA NO PINEL
Após o dialogo com a equipe responsável pela organização da festa Junina no Pinel; pensamos e mapeamos formas e meios de participarmos tanto com uma mostra dos trabalhos realizados pelos núcleos de pesquisas no Pinel, quanto por intervenções dos integrantes do grupo durante a festa. Um dos trabalhos a ser apresentado faz parte do trabalho em andamento do grupo, e se caracteriza por um compilado com cinco minutos de duração “TRUPINEL” trabalho este selecionado para participar da segunda mostra Nacional em Psicologia, evento marcado para o mês de Setembro na cidade de São Paulo...
Montar tenda, caixa de som, tv, projetor... Criar o convite para a mostra, divulgar... a comunicação se estabeleceu por diversas formas, assim como no boca a boca e convites enviados por e-mail e redes sociais...A festa começa... ...forró, dança, comes e bebes, crianças, correria, risadas...fogueira, pescaria, musicas, projeções e logo mais, a quadrilha...
Em busca do espaço – Doc. 17min. 50s / 2011
O vídeo aborda o espaço percorrido pela II Trupe de Choque em busca de um novo habitar para uma possível sede, e assim desenvolver a pesquisa do seu novo projeto: MATERIAL TEBAS ELDORADOS/11 de Setembro. Com as dificuldades de voltar a Usina de Lixo de Compostagem de São Mateus, durante os meses de Agosto e Setembro de 2010, o grupo opta em realizar o projeto em outro espaço, mais precisamente na zona leste da cidade, onde ocorriam os "núcleos de pesquisas". Na época, tivemos duas propostas de ocupação: uma delas foi a "Casa do Cristo" localizado na zona leste, em Itaquera. Outro espaço pesquisado foi um ex-centro de formação de condutores, espaço também localizado na zona leste (Penha)
Devido a questões burocráticas e estruturais os dois locais não contemplaram as exigências do projeto. O grupo então percorre outros espaços da cidade, mas sem sucesso. Durante essa busca, o grupo mantém sua pesquisa no Hospital Psquiátrico Pinel, que durante os anos de 2008, 2009 e 2010 abrigou o projeto anterior do grupo: Corpos Acumulados. Com o andamento do projeto MATERIAL TEBAS e sem conseguir outros espaços para sua nova sede, o grupo decide uma nova negociação com o Pinel e fortalece o diálogo em relação às atividades do grupo. Desde então, continuamos nossa proposta no Pinel obtendo uma troca entre os integrantes do grupo, funcionários e pacientes
Nosso projeto foi fundamentado para ser realizado na Zona Leste de São Paulo, usando como sede a Usina de Compostagem de Lixo de São Mateus, onde a II Trupe realizou o projeto “Miopia”. Já em “Corpos Acumulados” enfrentamos a invisível mão do poder público quando temporariamente fomos impedidos de continuar a pesquisa na Usina, espaço que usamos por quase 05 anos. A Limpurb empurra para a secretaria de serviços que nunca nos atende e que antes alega ser de ordem jurídica a questão que nos impede de realizar nosso projeto lá.
Em face disso, procuramos, assessorados pela Cooperativa Paulista de Teatro e pela Secretaria de Cultura, a Secretaria de Negócios Jurídicos desta cidade, que nos atendeu em nome de seu maior representante legal. Paralelamente a esta luta pela reconquista da Usina, procuramos incansavelmente por toda a região leste da cidade, outro espaço para a realização do nosso projeto (Carmem - Integrante)
O Pinel é atualmente nossa sede, um hospital psiquiátrico, onde lidar com a presença da loucura é trabalho, criação, criatividade, inspiração, inovação e transformação, local onde Corpos Acumulado nasceu e onde Material Tebas/Eldorado 11 de Setembro, começa a nascer em meio a criação e renovação do lugar. A criatividade tem que ser renovada para que possamos crescer, para que tenhamos que romper desafios, em fim Pinel é tentar transformar aquilo que está presente em nossa vida que requer dedicação, estudo, leitura, escrita, corpo presente e crescimento intelectual. (Joeli – integrante)
Os textos e Relatos abaixo, tem a pretensão de realizar uma análise dos integrantes do grupo durante estes quatro anos de atuação no Hospital Psiquiátrico CAISM Pinel, Ja que no mês de Dezembro o grupo esta de sida de sua atual sede base.
O Fim do Sem Fim - Por Marcelo Fernando
Durante os quatro anos de ações junto aos pacientes, funcionários e psicólogos, na ocupação do espaço do Caism Pinel, se consolidou em um amplo processo de investigação e criação, os quais podemos visualizar nas extensas produções de textos, cenas, fotografias, vídeos, documentários e hipertextos, apresentados em cada nova fase do projeto. Dentre nossas ações de autos e baixos durante esta ocupação, podemos situar dezenas de trabalhos apresentados em eventos de pesquisas, universidades, congressos e mostra de artes, os quais possibilitaram explorar através da teoria e da pratica, as formas de processamento de nossas investigações e criações, buscando assim, encontrar novos meios de desenvolver a produção de um novo e intensivo sujeito, potente na sua forma de afirmar o pensamento e ativo no modo de viver, cuja força dominante foi a capacidade de criar a própria condição da experiência aqui relatada. Durante o processo de criação destes quatro anos, o que nos auxiliou para a busca de entender o que estávamos fazendo foi a utilização da linguagem, seja ela a língua falada, a escrita ou imagética, as quais criaram correlações de mapeamento do pensamento. As palavras nos deram sustentação da forma de organização e percepção dos nexos de entendimento das significações percorridas pelos nossos intelectos, os quais recebem continuamente informações dos sentidos, alimentando os fenômenos da realidade. Este caminhar retido por nós através da linguagem possibilitou que o seu processamento fossem transformados em palavras. O que existia antes de iniciarmos as atividades no Pinel, não existe mais, o vazio primordial da qual ele se retinha, se superou, dando vazão a novas percepções criadas através do processamento organizado e estruturado criando uma nova cognição. Relendo alguns textos, percebe-se a mudança de posicionamento e a postura para os diferentes e contraditórios modos de comportamentos. Ao expormos um desse fatos foi possível pensar em uma situação que ocorreu logo em nossa chegada ao Pinel, quando no mesmo ano, em nosso primeiro relatório escrito das atividades que propusemos, ninguém do grupo as escreveram. Se buscarmos estes históricos em nossas criações, verificamos a falta de compreensão e observação da época, situações pertinentes dentre o contexto naquele momento. Uma das causas observadas foi o fato do grupo estar se conhecendo entre si, momentos em que as particularidades são pouco expostas. Outro, por haver recém chegado ao Pinel e assim procurando conhecer mais a fundo as pessoas e o espaco ocupado. Após um ano de pesquisa e atividades, nossas propostas já eram outras, tendo um maior compromisso como o trabalho e com o espaço. Recorremos ao ano de 2009,
A interesse - particularmente do núcleo de vídeo - de que os funcionários tenham um entendimento do que esta sendo proposto, seja através da participação ou observação do encontro, ou através de vídeos, textos, fotos que dialogam diretamente com o processo, sendo assim, buscando pesquisadores e interessados em acompanhar o processo, para juntos, pensarmos possíveis horizontes para as criações e formulações de idéias em trabalhos que envolve o universo da saúde-mental.
A partir deste “despertar” mergulhamos a fundo nas investigações e criações diárias afetando e sendo afetado constantemente. Daquele período em diante todos do grupo buscou explorar mais suas ações através da observação de suas práticas e exploração de suas capacidades intelectuais. Neste caminhar, de observação e processamento, as imagens e as palavras ocuparam um forte vínculo com a realidade do processo de investigação e criação, pois, permitiu alargar o espectro de entendimento do processo, permitindo assim, avistar os horizontes os quais buscavamos. Esta passagem nos auxiliou a organizar, conectar e estruturar nossos pensamentos, criando assim, significados isolados, que junto ao choque e o encontro com o outro e suas sucessivas rupturas, alimentava nossas pesquisas. Na busca de entender este processo, em 2010 escrevemos,
Habitar um espaço é conviver, dialogar, propor, comunicar, e conseqüentemente criando terreno para poder andar, cavar, plantar, colher e disseminar o encontro vivido, se não há comunicação com o espaço e com as pessoas que também habitam esse espaço, não temos pra onde “caminhar”, senão trabalharmos em conjunto com o local para assim criarmos a possibilidade de abertura de novos caminhos. Este interesse em expandir nossas pesquisas para todos que participam direta ou indiretamente deste processo, sempre foi importante para nosso trabalho, pois é nestes pequenos espaços que armamos e tramamos diferentes formas de resistência ao desfecho colocado, mesmo sabendo que estamos em contraditórios espaços de atuação e diálogos.
Conviver durante cinco anos (com esta formação atual da Trupe) num mesmo grupo, permite compreender dentro de cada ponto de vista, as complexas relações que estamos diariamente envolvidas no diálogo com o mundo. Neste percurso, os abismos e medos, se compõem a partir da camada de significações do nosso eu, contagiando e dialogando com o coletivo, gerando medos e incertezas. Ao longo dos encontros destes quatro anos, fomos percebendo uma maior abertura do grupo para o processo criativo entre as diferentes linguagens pesquisadas e trabalhadas, havendo, em diferentes momentos uma interação e participação coletiva durante as produções, sempre buscando respeitar as diferenças e procurando estimular a que todos participassem das tarefas, a fim de dar uma matriz ao processo como genuíno processo coletivo de criação.
A partir do relato dessas experiências, revemos que realmente precisamos de novas experiências, livres, preferencialmente não hierárquica, plenas de entusiasmos e experiências de aprendizagem, onde há uma união principalmente por um sentido profundo de comunidade e que não tenha nenhum vestígio de autoridade, e que seus projetos sejam eficazes, diversificados e criativos, para assim tentar criar os contornos de novos meios de percepções de um novo ser, de um novo sentir, de suas ações e reações no embate com a realidade; e o vazio que atravessa as realidades essenciais ou, as potências, são necessários e plenos, ampliando assim ao homem seu potencial de idealizar realidades. Assim, para nossas ações, aos nossos sonhos, ao simbólico e às nossas possibilidades, reitera-se com a intensidade do azul mais cintilante do universo, o nosso direito de vivenciar outros mundos, ainda que por serem construídos, limites impossíveis de deterem o homem, pois como dizia Goethe, "Nossos sonhos são premonições de nossa capacidade inerente de vermos aquilo que somos capazes de realizar".
Vasculho as gavetas, depois de uma hora ingrata de agonia - Por Carmem Soares
Nestes quatro anos e meio de pesquisa artística dentro da realidade panóptica do Pinel, realizamos, com a parceria do hospital e com o subsídio de verba pública, um projeto contemplado pelo VAI (Programa de Valorização de Iniciativas Artísticas) e outros três projetos contemplados pela Lei de Fomento ao Teatro: CORPOS ACUMULADOS, MATERIAL TEBAS e MATERIAL CIBORGUE. Em cada um destes projetos, durante seu período de um ano de execução, realizamos os Núcleos Peripatéticos de Pesquisa abertos à comunidade e aos pacientes do Pinel, que tinham como objetivo, em um primeiro momento, (nos projetos do VAI, CORPOS ACUMULADOS E MATERIAL TEBAS) pesquisar a união do teatro a outras linguagens artísticas: artes visuais, vídeo, fotografia, música, tecnologia, interpretação polifônica, direção teatral e literatura. Neste contato com os pacientes do Pinel, que nos propunham uma outra forma de estar junto em uma proposta artístico-pedagógica, descobrimos uma pedagogia que chamamos de desrazão: neste contato reconstruímos nossos corpos, nossas subjetividades picotadas.
A partir de nossa experiência no Hospital Psiquiátrico Pinel, nossa moldura artístico-pedagógica, que chamamos na Trupe de Teatro Peripatético (Ensinar Caminhando), transformou-se. O objetivo de estimular o pensamento crítico ganhou no espaço do Hospital outra dimensão. Nossa pergunta foi: como estabelecer um espaço de reflexão em um local em que o pensamento tradicional surge barrado pela reclusão? A partir desta pergunta, os Núcleos Peripatéticos construíram um diálogo com a desrazão, conceito instável elaborado por Michel Foucault. A desrazão entendida não como sinônimo de loucura, de sem-razão, mas como práxis (pensamento e ação) em negativo, como o negativo da lógica perversa do mercado e dos imperativos excludentes da Razão Administrada. Os Núcleos de Pesquisa foram coordenados pelos integrantes do grupo, e procuraram estabelecer com seus integrantes uma relação de mútuo aprendizado. O conhecimento teatral e a pesquisa caminhavam juntos, tornando cada núcleo um espaço para o desenvolvimento de formas teatrais descobertas e experimentadas na relação íntima com seus participantes. No projeto MATERIAL CIBORGUE, a pesquisa dos Núcleos Peripatéticos em cada enfermaria do Pinel (sempre gratuito e aberto também às pessoas interessadas de fora do hospital) foi o de trabalhar, a partir de uma coordenação/direção de um ator da Trupe, um material dramatúrgico específico, que vínhamos pesquisando dentro do projeto estrutural do grupo. Assim trabalhamos dentro das enfermarias, pesquisando junto com os moradores e internos os personagens e universos de Samuel Beckett, Henrik Ibsen, William Shakespeare e Oduvaldo Vianna Filho.
Cada Núcleo desta vez , sob a coordenação de um diretor, pesquisou junto com os pacientes, uma peça teatral que se somava aos diversos materiais dramatúrgicos pesquisados pela Trupe: “O Construtor Solness”, “Quando nós, os Mortos, despertarmos”, “John Grabriel Borkman” (textos de Ibsen do MATERIAL FIORDES), "Os Azeredo mais os Benevides", "Brasil, versão brasileira", "Rasga Coração", (textos de Oduvaldo Vianna Filho do MATERIAL BRASIL II), "Esperando Godot" e "Dias felizes" (de Samuel Beckett do MATERIAL RUÍNAS) e "Ricardo II" , "Henrique IV (Parte I)", "Henrique IV (Parte II)" (de William Shakespeare do MATERIAL INGLATERRA"). Deste modo, a cada três meses dos anos de 2011 e 2012, tivemos a apresentação de três experimentos artísticos, dirigidos por quatro atores diferentes, provindos de cada um dos quatro Núcleos Peripatéticos. Chamamos as apresentações de cada peça, de experimentos artísticos porque a investigação sobre cada texto não resultou, necessariamente, em uma forma teatral acabada, mas sim, em uma grande experiência cênica e performativa criada a partir do contato com os moradores do Pinel. A direção promovida pelos atores/coordenadores/encenadores não visou a montagem de um espetáculo artístico. Visou sim estabelecer um processo de criação em que a pesquisa sobre cada MATERIAL TRÁGICO serviu de mote para a expressão artística emancipada de todos os participantes. Assim, processo criativo e pedagógico, encenação e ensino confundiram-se nos espaços de investigação dos Núcleos. Em quatro anos de Residência Artística no Pinel, além dos Núcleos Peripatéticos, a Trupe realizou dentro do hospital várias temporadas gratuitas dos seus trabalhos criativos.
Em CORPOS ACUMULADOS, foram quatro formatos diferentes de compartilhamento do nosso processo de pesquisa com o público, chamados de Ensaios em Devir, em que tínhamos ainda como base de troca com o público um espetáculo montado, mas que se transmutava a cada abertura e apresentação. Foram quatro, podemos dizer os espetáculos diferentes (se é que podemos chamar de espetáculo) que fizemos: "Corpos Acumulados Experimento 1" (de 06 à 21/12 de 2008), "Corpos Acumulados Experimento 2" (de 11 de setembro à 18 de outubro de 2009), "Corpos Acumulados Experiência 3" (de 31/10 à 20 de dezembro de 2009) e "Corpos Acumulados Experiência Quatro" (de 30/01 à 28/03 de 2010). Em MATERIAL TEBAS, iniciamos no ano de 2011, o que chamamos de Detritos em Ensaio, um formato de criação em que apresentávamos os nossos fracassos, um anti-produto, as ruínas de tudo aquilo que não tinha dado certo no processo criativo. Ao contrário de um espetáculo pronto e bem acabado, o que vinha a público eram os nossos despojos, nossas dificuldades em montar um espetáculo à luz do capitalismo tardio, os fracassos de tudo o que surgiu daquilo que não conseguimos digerir. Em 2012, ampliamos o conceito de Detritos em Ensaio, propondo novo formato de pesquisa e relação com o público em nosso novo projeto contemplado pela 19ª edição de fomento ao teatro, MATERIAL CIBORGUE. O objetivo foi abrir ,durante o período inteiro de vigência do projeto (novembro de 2011 à novembro de 2012), nossos dias de ensaio (sextas e sábados) para a participação do público, buscando radicalizar a dissolução de fronteiras entre plateia e criadores, em um acontecimento teatral que tentava romper com o conceito de obra artística, substituindo-a por uma experiência comum, capaz de proporcionar uma grande criação coletiva.
Trajetória - Por Joeli Monteiro
Nessa trajetória junto a II Trupe de Choque, construir meus anseios de transpor um sonho: O sonho de aprender, de transformar, de fazer teatro, de criar o novo dentro de um grupo de pesquisa, que produz estudos intensos, que trouxe desafios para romper barreiras de minha criatividade e de meu corpo, levando o crescimento do meu interesse pela pesquisa, pelo descobrir e o aprender constante. Dentro desses estudos, conhecer estudar aprofundar com os ensinamentos de vários autores destaco: Karl Marx; O trabalhador torna-se toda a riqueza mais pobre quanto mais ele produz, mais aumenta a sua produção em potência e alcance.
O trabalhador se torna uma mercadoria cada vez mais barata as mais mercadorias que cria. Com o aumento do valor do mundo das coisas procede em proporção direta com a desvalorização do mundo dos homens. Trabalho produz não apenas mercadorias, que produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria - e fá-lo na proporção em que produz mercadorias em geral. Marx, Manuscritos Econômicos e Filosóficos (1844). Bertolt Brecht; Há homens que lutam um dia, e são bons; Há outros que lutam um ano, e são melhores; Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; Porém há os que lutam toda a vida Estes são os imprescindíveis. Tudo isso só veio a somar e a abrilhantar meus conhecimentos. A convivência com pessoas que residem em um hospital psiquiátrico, que se encontra em condições de abandono social, moral e racional, fez com que eu extraísse com os Núcleos Peripatéticos, o conhecer esse mundo paralelo, que leva a criar um corpo que pensar demente, levando a entender os caminhos de minha pesquisa junto aos estudos que o grupo sempre faz em mesa redonda. Trazer um pensamento racional para a pesquisa de Corpos Acumulado, Material Tebas 11 de Setembro e Material Ciborgue Eldorado 11 de Setembro, é remeter você a construir um espetáculo com muita pesquisa, leitura e laboratórios. Comparar épocas, mostrar vivencias e o maior desafio, transformar tudo aos dias de hoje, observar cada passo de sua própria vida, cada momento vivido dentro da história de sua história, perceber que o passado se transpõe para estar no presente. E como fazer isso? Usar os Núcleos para que possamos chegar a novos questionamentos, novas reflexões dentro de todas as descobertas e de todos os novos caminhos, e colocar nesses caminhos que construímos ou desconstruímos outra nova criação. Uma experiência dentro do Núcleo Peripatético: Levantar bem cedo, por volta das seis horas dos sábados e me dirigir ao Pinel, no NIA (enfermaria do hospital, onde são atendidos as crianças e os adolescentes), às 10 horas, e trabalhar. Nesse dia Eu, Eduardo, Murilo e Anderson; trabalhamos com as crianças e adolescentes o que estamos trabalhando em cena - Sete Contra Tebas, fazer um jogo que leve eles a trazerem um corpo de ataque e descobrir como os guerreiros de Tebas atacam.
No primeiro momento, começamos o jogo com bolas para soltar e acordar o corpo adormecido dos pacientes, no segundo momento foi dividido em dois grupos entregamos aos grupos instrumentos musicais; esses instrumentos seriam suas armas, para que atacasse simultaneamente, o grupo que apresentasse melhor ataque conquistaria Tebas, para isso foram dados vários comandos a cada grupo, onde eles deveriam usar os recursos que tinham em mãos, os instrumentos e seus corpos para vencer. Eu fazia parte de um dos grupos que foi nomeado de Etéocles, assim como o outro grupo de Pólinices. As crianças de meu grupo estavam empolgadas em participar com muita garra, mas um deles me chama a atenção, pois queria muito atacar o outro grupo, mas seu corpo dominado por medicamentos anunciava que estava com muito sono, ele então agachou com o instrumento na mão, (um chocalho) e atacava mesmo de cócoras, toda vez que Etéocles avançava com o grupo tocando o instrumento uma musica com muita cadencia, ele avançava junto andando de cócoras, quando o mesmo grupo parava esse corpo de cócoras voltava ao seu sono de letargia. Isso me leva a pensar que guerreiros são preparados para atacar nas guerras de uma forma que o pensamento do por que estou fazendo isso se perca entre o prazer do estar fazendo isso. Talvez Sete Contra Tebas deva ser de estratégia emocional sem usar o racional. Descobrir e trabalhar dentro do Núcleo: Trabalhar essas descobertas dentro do Núcleo é um desafio grande, onde o universo do material Inglaterra remete há outro tempo, um tempo que temos que trazer para o agora. Onde está o poder daquele tempo e do hoje? O comando sonoro que vem de dentro de uma casa em ruínas, onde de fora seus vassalos, soldados, empregados ou funcionários, dependendo do tempo (época) em que nos encontramos, são comandados a trabalhar por alguém que quer vencer a guerra, mas para isso deve ter em mãos corpos que queiram trabalhar de uma forma, onde o pensamento do porque estou fazendo isso, se perca entre o prazer do estar fazendo isso, sem ter nenhum tipo de questionamento do porque estou fazendo isso. Acho que isso sempre se repete quando o comando tem em mãos um objetivo e ferramentas para executá-los, ou seja, ter em mãos um corpo em letargia racional, essa letargia é o que vivemos quando os acontecimentos e suas mudanças não nos afetam. Construir e colocar tudo isso em prática, nos levou a desbravar o Hospital Psiquiátrico Pinel, onde era nítido o abandono e o descaso do espaço físico, que, para a II Trupe tornou-se um esplêndido e gigantesco cenário, onde a desrazão se fez morada. Então mãos a obra, um desafio que me levou a uma trajetória de extrair de dentro de mim um novo corpo, que internaliza os processos gradativamente dentro de meu tempo, levando a aprender o todo ou as partes de um todo, a negar as formas e os meios, a sentir dor, sentir fome, cansaço e a expor um amor. Um amor que vejo nos olhos trupianos, cada um a sua forma, uns com mais intensidade outros com pouca ou com nenhuma intensidade, mas é amor. E desse espaço psiquiátrico, consumimos: formas e meios de sugar todas as veias, de saber aproveitar cada cantinho que estava morto, deixando-os com vida, trazendo nossas histórias e memórias que foram traçadas de formas tristes e alegres, trágicas e cômicas, sendo ela traçada na forma de Édipo ou Antígone, dentro de cada jornada (nome dada a forma de mostrar a criação particular de uma cena), seja ela com lixo em seu nu artístico coberto de lama, em uma instalação que traga o tema proposto ou em cada corpo cansado, depois de um intenso e produtivo aquecimento e dia de trabalho, e em cada apresentação cheia de euforia, mostrando toda criação e desenvolvimento dentro do projeto da II Trupe de Choque. Um final ou anti-final de trajetória:
Foram três anos de uma trajetória junto à letargia, onde o grupo colocou grandes e pequenas paixões, para gerar caminhos, que se ramificaram com novas idéias. O tempo sendo nosso maior inimigo levou ao desgaste de nossa estadia junto à letargia. Ocupar esse espaço, já não é mais permitido, então explorar e conquistar são a nova meta da II Trupe, e graças às forças que nos pulsa e alimenta, a vontade do novo nos leva a perceber novos horizontes. Sendo necessário continuar a construir novas histórias, novas pesquisas, novo aprendizado, ao abrir essa nova porta em outros ares, descobrindo assim um novo corpo racional, porque é assim que se move com o teatro. RELATORIO; Por Leila do Nascimento MEMORIA; Por causa dessa palavra resolvi que escreveria sobre todos os encontros do núcleo, seria uma forma de guardar essas memorias, porem, fracassei. O meu relatório será esses relatos, esse fracasso, não irei descartar nada, nem sequer uma vírgula, a forma como escrevo na primeira pessoa, o eu, o eu, o eu... Junto aqui algumas memorias, tudo o que havia escrito, para tentar guardar pelo menos uma parte da minha memoria, do meu olhar sobre o que fizemos no núcleo. Escrevo sobre o núcleo Brasil porque foi o ultimo que realizei nesse espaço e o núcleo estava mais ligado aos pacientes e ao espaço psiquiátrico. É o que acho importante registrar nesse momento, em que estamos de mudança, porque este núcleo, neste formato só foi possível nesse espaço, por conta do dialogo com os pacientes e pelo próprio formato do núcleo de ser um espaço de aprendizado para todos, no qual não pressupõe que já tenhamos um conhecimento aprofundado do Vianinha, mas pelo contrario que vamos conhecê-lo juntos. O objetivo é pesquisarmos juntos, esse texto, então escolhemos ler, discutir, e escolher o que mais queremos investigar. Queríamos investigar o universo do futebol por essa razão decidimos realizar esse núcleo na enfermaria masculina para poder chocar esse universo com os trechos escolhidos da peça Rasca coração. Núcleo Brasil; autor a ser estudado Vianinha; peça Rasca coração. Impressões sobre o primeiro encontro; Começamos sempre com o núcleo na enfermaria, por essa razão tem um caráter muito diferente do restante do ensaio porque pensamos primeiramente em como dialogar com os pacientes o nosso material, (chamamos de material tudo o que podemos pesquisar sobre e em relação ao texto), para depois a partir do que surgir ou não, possa nos estimular a criar ou apenas pensar e refletir sobre o encontro. Então para os pacientes e para nós mesmos decidimos não ler antes a peça, mas experimentar primeiro o que poderia surgir de cada um sobre o nome da peça, então foi feita essa pergunta para os participantes e como trabalhamos no formato em que ao mesmo tempo em que propomos algo, também nos participamos, então relado a minha própria resposta a pergunta e refletindo sobre o que surgiu.
O que rasga o seu coração? No primeiro momento pensei em coisas tristes, como uma criança com fome sem nada para comer ou pior com fome de conhecimento de experiências, de relação, de troca com o outro e foi isso que rasgou o meu coração. Quando trocamos essa pergunta uns com os outros, surgiu coisas diferentes até alegres, e descobri que muitas coisas podem resgar o nosso coração. Começamos o núcleo com essa pergunta como introdução, e depois, uma partida de futebol como uma forma de aquecimento, para tentar chocar depois com um trecho do texto escolhido e realizarmos uma cena. Então propomos uma partida de futebol na enfermaria masculina. As regras já estão no corpo e não foram necessárias explicações, todos sabiam jogar, tinha uma força, uma energia, uma vibração, construiu-se um coletivo, uma relação a partir do futebol. Que fenômeno é esse que está no corpo do brasileiro? Quando penso em futebol, penso na cultura do pão e do circo, penso como uma forma de distração da vida de trabalho, no sofrimento, no individualismo. Mas é um lugar no qual eles podem fazer parte de um coletivo, no qual todos param para ficar na mesma energia, é uma forma de comunicação. Penso nessa carência que as pessoas têm de fazer parte de um grupo, de serem criadores, de serem coletivos. São tiradas do ser humano no dia-a-dia, essas capacidades e condensadas apenas em alguns momentos; por exemplo, o futebol. Foi incrível usar o futebol como aquecimento, com os pacientes, pensei que eles iriam embora depois que a partida acabasse, mas não ficaram, lemos o texto juntos, falaram o que entenderão e proporão coisas para cena. Pensei muito nisso como forma pedagógica para esse núcleo, usar uma linguagem que todos conhecem (ex.; futebol) que é uma cultura de massa brasileira, para depois inserir algo que ainda não é conhecido por todos (ex.; o teatro brasileiro, Vianinha) e descobrir através desse material muito mais sobre esse Brasil, ou seja, usar o Brasil para descobrir o Brasil. Segundo encontro; titulo: memoria. Coloquei esse titulo por causa da proposta e do que foi discutido em roda. 1ºmomento; Começamos o núcleo na enfermaria masculina e o objetivo era criarmos uma historia, juntos a partir do personagem Manguari e uma bola, durante a narração foi interessante porque se retomou na forma narrada elementos do quê havia acontecido no nosso jogo de futebol. 2ºmomento; O Ricardo trouxe o seu protocolo, era um vídeo no qual assistíamos a nos mesmo no ensaio anterior. 3ºmomento; lemos o texto. Então esse segundo núcleo nos levou ao passado ao que já havíamos feito, discutimos sobre a questão da memoria, o quando ela é importante para nós refletirmos sobre o que estamos fazendo, e percebi quando lemos o texto rasga coração juntos, que também esse tema é muito importante na peça, pois ela traz o tempo (que chamarei de) passado/histórico/social na voz do personagem 666, presente/histórico/social na voz do personagem Manguari, futuro/histórico/social na voz do personagem Luca, coloquei dessa forma porque a peça traz o universo particular dos personagens de um pai que se tornou avô, de um filho que se tornou pai, e um universo publico para revelar as mudanças históricas, sociais, que ocorreram na sociedade, mas apesar dessas mudanças sociais parece que a relação familiar continua a mesma. Vai tratar de temas sociais como, por exemplo, a sexualidade pelo ponto de vista desses três momentos históricos, sociais, de cada personagem. Essa foi uma primeira reflexão sobre o texto ainda estou confusa com o que escrevi espero que com a continuação da leitura possa entender melhor, mas essa primeira leitura me trousse umas questões: existe uma historia uma memoria brasileira? O que essas três gerações revelam sobre o Brasil? Qual é a historia do futebol no Brasil? Terceiro encontro; titulo: dúvida.
Começamos o núcleo com algumas duvidas de como encaminhar a nossa pesquisa na enfermaria masculina, então decidimos que iriamos ler o texto que foi produzido por eles, no qual eles faziam parte da historia, era interessante porque eles ouviam e queriam ler a historia varias vezes, a historia era deles, esse texto pode ser considerado por alguns como um texto mal escrito, sem nem uma questão politica, mas era algo deles, algo nosso, tinha uma “força” a qual eu não pensei que teria. Então neste dia ficamos com a leitura desses dois textos o que foi produzido na enfermaria, e terminamos a leitura do rasga coração. Quarto encontro; titulo: jornadas. 1ºmomento: enfermaria. Por conta da minha jornada ( jornada é o que chamamos quando você tem uma proposta de cena mas que ainda não é uma cena fechada que pode ser mudada e transformada durante a própria experimentação.) acabei levando alguns objetos uma enxada, um regador, uma bola, um chapéu de trabalhador, e esses objetos ajudaram a formar a cena. A primeira proposta era de fazer o jogo da marionetes, com os pacientes, depois começou a chuviscar e acabou-se que a historia do futebol na chuva voltou, então todos jogamos e enquanto um lia o texto outro trabalhava carpindo o gramado, formou-se uma grande cena que trazia no mesmo espaço pessoas se divertindo enquanto outra trabalhava. 2º momento: as jornadas; pensando no texto propus trazer esses três momento históricos, vou chamar de; reforma agraria, o industrialismo, e o educacional na voz de cada personagem, então cada um defendia uma dessas posições, eram massacrados pelo outro que o enganava e o levava para jogar futebol. Na jornada do Ricardo o personagem se misturava com ator, perguntava olhando o seu reflexo no espelho – pai o que é ser um pai? Fazia a barbar, pedia ao publico para ajudar a fazer a barba, parecia um pouco com um ritual, nos fez pensar muito sobre o texto do rasga coração que nos mostra um Brasil de gerações no qual o velho é substituído pelo novo, porem não é o que vemos hoje porque parece que todas essas realidades convivem neste Brasil, o agrário, o industrial, o educacional, a escravidão etc... e me vem essa questão; de qual brasil ele está tratando? Ele fez dessa forma para dar conta desses momentos históricos? Porque ele coloca essas questões no formato de gerações que se transformam? Quinto encontro: o filme 1º momento enfermaria; proposta fazer o seu autorretrato relacionando com o Brasil que você conhece e depois olhar o retrato do outro e dizer que Brasil se via no retrato do outro, foi interessante porque os pacientes misturavam o Brasil do outro com o seu Brasil, então ao falar do outro ele falava de si. O Brasil em você, e você no Brasil? Autorretrato. 2º momento; assistimos ao filme Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro, e foi incrível, foi uma verdadeira aula de historia do Brasil de identidade. O povo brasileiro, o que não quer ser índio nem negro e que também não é estrangeiro. Um nada, uma nova geração que traz na sua historia uma não valorização. Escrever... Escrever.... Muita coisa se perde quando não se escreve. Depois desse encontro parei de escrever acho que nos perdemos um pouco, abrimos muitos focos. Conversamos muito e decidimos fazer uma direção coletiva, na tentativa de encontrar um foco comum a todos. Discutimos bastante sobre algumas propostas, primeiramente inspirado no texto do Darcy Ribeiro, gostaria de trabalhar com a questão da historia brasileira, trazendo a questão da identidade, porem com as discussões decidiu-se trabalhar a questão da relação do futebol com a historia do Brasil esse processo é mais lento, mas acredito que vale a pena. Pela primeira fez, vi todos discutindo, brigando para dar o seu ponto de vista. Realizamos três encontros, e nos três saímos sem definir qual seria o cronograma, eram tantas ideias. Pensei em duas propostas as duas foram negadas e transformadas e acabamos que decidimos por conta do tempo e por perceber que precisávamos dialogar também através da própria cena. Então fomos para pratica para ver se ela conseguia comunicar o que não estávamos conseguindo com as palavras. Memoria de um encontro muito especial Havia feito varias vezes o exercício de se vendar, no qual você é conduzido pelo espaço, nem pensei que poderia me surpreender mais, porem fazer com um paciente foi muito especial. Primeiro ele começou sento vendado, andei com ele pelo espaço do jardim da enfermaria, mostrando as coisas a partir dos outros sentidos, até ai tudo bem era eu quem conduzia, depois trocamos, coloquei a venda e então foi muito interessante, ele me levou até o buraco que ele havia feio num dos encontros anteriores e me perguntou; - o que é isso? Eu – um buraco. Ele – sim, mas o que significa? Eu – não sei. Ele me mostra a grama. Ele – o que é isso? Eu – é a grama. Ele – sim, mas o que significa? Eu – não sei. O que significa? Ele – é um cemitério. Esse é o buraco que eu vou te enterrar. Não fiquei com medo, pelo contrario achei maravilhoso, ele me trazer a memoria daquele buraco, e me levar para outro lugar. Não estava mais no jardim da enfermaria, estava num cemitério. Continuamos e ele sempre colocava a minha mão em algum buraco, e por incrível que pareça havia muitos. Senti-me realmente como se estivesse num cemitério, perguntava para ele de quem era esse buraco, essa cova. Ele me levou na cova de sua mão, a quê seria do seu pai, e passamos um bom tempo procurando aonde seria a dele. Conheci um pouquinho da historia daquele paciente nesse cemitério. Um olhar para o futuro partindo do passado; É preciso não esquecer nada; É preciso não esquecer nada; Nem a torneira aberta nem o fogo aceso, Nem o sorriso para os infelizes nem a oração de cada instante. É preciso não esquecer de ver a nova borboleta nem o céu de sempre. O que é preciso esquecer é o nosso rosto, o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, a ideia de recompensa e de glória. O que é preciso é ser como se já não fossemos, vigiados pelos nossos próprios olhos severos conosco, pois o resto não nos pertence. Cecilia Meireles Quando entrei no grupo não conseguia falar em roda, pensando que essas pessoas tinham um suposto saber que eu não tinha, quando fazíamos aquecimento, ficava pensando - todos devem estar me olhando, devo estar sendo reticula, eles tem muito mais experiência do que eu, nas cenas pensava como sou uma péssima atriz, mas um dia farei faculdade de artes cênicas e também serei uma grande atriz. Quando viemos para o pinel pensei em sai do grupo porque não me achava capaz de realizar os núcleos nas enfermarias. Essa poesia fala do que aprendi de mais valioso no grupo, que é preciso ter memoria, não esquecer nada, apenas o nosso olhar sobre nos mesmos, quando parei de pensar sobre o que eu achava que pensavam de mim, quando não queria mais nem uma recompensa ou gloria, consegui FAZER e para isso foi preciso esquecer à ideia imposta socialmente de incapacidade. Fazemos o ensino fundamental, e pensamos - não estou preparado para fazer, terminamos o ensino médio e pensamos ainda não estou preparado para fazer, fazemos cursinhos, terminamos a faculdade e ainda nos sentimos despreparados e nem sequer sabemos o que queremos fazer para o quê que não estamos preparados se nem escolhemos o que queríamos fazer. Não estou fazendo artes cênicas nem penso mais em ser uma grande atriz, por causa do que vivi no grupo escolhi fazer filosofia. Na filosofia estou lento textos de séculos, décadas atrás, são tantas teorias, tantos filósofos, tantos mestrados, doutorados e nem um fazer. O grupo foi para mim um espaço de pratica, no qual aprendi fazendo, me ensinou que para ensinar o mais importante não é saber, mas é querer aprender. Que existe vários tipos de inteligências, e que devemos olhar para todas. Cada pessoa no mundo tem algo para ensinar, porque só ela viveu o que mais ninguém viveu. Por conta disso e pela falta que sinto de pratica, quero pesquisar no meu núcleo Cecilia Meireles, porque sua poesia me inspira a trabalhar com o corpo, com a memoria, com pessoas. Não quero ensaiar uma peça, quero pesquisar o corpo e sua memoria. Então o meu tema vai ser memoria, dentro disso quero pesquisar, relações humanas. Trago aqui o que já havia escrito no meu outro relatório e uma citação do Artaud para refletir sobre o que quero pesquisar no meu núcleo, que é ao mesmo tempo o que aprendi na trupe em relação ao que é fazer teatro, a própria formação do grupo, de não atores, (no sentido de pessoas formadas em cênicas) mas, trabalhadores pessoas de diversos lugares que simplesmente querem fazer e no qual esse fazer foi permitido e nos formou. Romper a linguagem para tocar na vida é fazer ou refazer o teatro; e o importante é não acreditar que esse ato deva permanecer sagrado, isto é, reservado. O importante é crer que não é qualquer pessoa que pode fazê-lo, e que para isso é preciso uma preparação. Isto leva a rejeitar as limitações habituais do homem e os poderes do homem e a tornar infinitas as fronteiras do que chamamos realidade. É preciso acreditar num sentido da vida renovado pelo teatro, onde o homem impavidamente torna-se o senhor daquilo que ainda não é, e o faz nascer. E tudo o que não nasceu pode vir a nascer, contanto que não nos contentemos em permanecer simples órgãos de registro. O corpo acumulado da historia: O meu corpo escravo “O corpo escravo carrega dentro de si, um não direito, uma submissão, uma culpa, como um homem com fome que entra em uma chácara para pegar uma fruta, se sente roubando o que não é seu. Séculos e séculos, ensinando esse corpo o não direito. E o meu corpo escravo sente o não direito ao teatro, ele grita – escravo você só está ai porque deixaram você ficar quando não te quiserem você terá que ir embora”. Não tem como olhar para o que escrevi acima sobre mim, e não pensar sobre essa subjetividade, que traz no corpo uma memoria histórica e social, de inferioridade. Por essa razão quero trabalhar com a questão da formação da subjetividade brasileira. E para entender como aconteceu essa formação é preciso olhar para historia. Acho que a minha pergunta seria até que ponto a memoria do individuo, sua historia pessoal pode trazer questões subjetivas que estão ligadas a historia social do Brasil?
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