Material Tebas/Eldorado/11desetembro (O projeto teve inicio em Junho/2010)
Como tema para o seu novo projeto de pesquisa teatral, a II Trupe de Choque elegeu a miragem de Eldorado, cidade imaginária que atiçou os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização. Essa miragem, que os desejos de colonizadores, seringueiros e garimpeiros engendraram e que a história brasileira não cansou de dissolver, servirá de mote para a criação de um espetáculo teatral que procurará tecer uma investigação espacial a partir de escavações de um território esquecido da cidade: o Hospital Psiquiátrico Pinel. A pesquisa buscará, para além das lendas, estilhaçadas em ecos, boatos e versões, aproximar-se da história de todos os soterrados pelas ilusões que a má formação da sociedade brasileira não satisfez.
“Esta dificuldade – nosso embaraço em encontrar as formas de luta adequadas – não virá de que ainda ignoramos o que é o poder? Afinal de contas, foi preciso esperar o século XIX para saber o que era a exploração; mas talvez não se saiba o que é o poder. Quem exerce o poder? Onde o exerce? Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de classe dirigente não é muito clara nem muito elaborada. Além disso, seria necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, quase sempre hierarquicamente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.” (MICHEL FOUCAULT)
A imagem central deste projeto, capaz de articular seus inúmeros e distintos Eldorados, é a da viagem, do trânsito permanente, do habitar entre mundos, a Passagem absoluta, a imagem do navio. O barco à deriva, ao longo de uma geografia semi-real, semi-imaginária, nos propõe a situação liminar – situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao navegante de ser fechado às portas das cidades em terra firme: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior e inversamente. Fechado no navio, de onde não se escapa, o navegante é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das trilhas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra a que aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria é essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer.
Como material cênico catalisador desta investigação sobre os ELDORADOS, sobretudo o ELDORADO DO ESPETÁCULO: 11 DE SETEMBRO, temos uma rede de textos capazes de dar continuidade ao universo trágico pesquisado pela II Trupe em Corpos Acumulados: a trilogia tebana, escrita por Sófocles, e a peça Sete contra Tebas, escrita por Ésquilo e que corresponde à continuação da história do clã de Tebas, uma espécie de quarta parte da trilogia.
A metodologia de montagem está baseada em identificar as ações centrais de cada peça e improvisá-las a partir do confronto com o universo brasileiro dos Eldorados e com o universo do ELDORADO 11 DE SETEMBRO.
Quando o presente e o futuro estão congelados, todo excremento surge do passado. Ideologias falidas, utopias obsoletas, conceitos antiquados, ideias fossilizadas persistem em nossa mentalidade poluída. " O lixo histórico e intelectual coloca um problema ainda mais sério do que o lixo industrial. Quem nos livrará da sedimentação de séculos e séculos de estupidez ?" - Chris Horrocks/Jean Baudrillad

Por uma poética da imagem: criação audiovisual
“Não há lembrança de coisas antigas: nem deve haver...
Alguma lembrança das coisas que virão...”
Eclesiastes
Os vídeos e documentários relatados abaixo, condensa parte da pesquisa audiovisual que está sendo desenvolvida no processo, de modo geral, conjuga o processo de ensaios, núcleos de pesquisa e o processo de apresentação de ensaios abertos. Esses trabalhos quando finalizados se cria uma narrativa; se transformando quando postamos na internet junto com textos, fotos e áudio; se transfigurando quando utilizamos junto à instalação. As imagens em sua proposta de montagem acumula e contrapõe, uma série de imagens captadas no caminhar do processo, na tentativa de criar novas relações entre Vídeo, Teatro, Instalação e Tecnologia.
“Um platô está sempre no meio, nem início nem fim. Um rizoma é feito de platôs. Chamamos platô toda multiplicidade conectável com outras hastes subterrâneas superficiais de maneira a formar e estender um rizoma. Escrevemos este livro como um rizoma. Compusemo-lo com platôs. Tivemos experiências alucinatórias, vimos linhas, como fileiras de formiguinhas, abandonar um platô para ir a um outro. Cada platô pode ser lido em qualquer posição e posto em relação com qualquer outro.” ( Mil platôs, vol.1, Gilles Deleuze e Felix Guattari)
Processo de criação de personagens
“ZONA” 20 min. 13 s
“A Zona é uma área mágica e incompreensível, de espaço radicalmente distinto – um espaço de outridade situado além da Lei, um Chernobyl em que todos os desejos são realizados. Há na Zona objetos inusuais: objetos enigmáticos como os vazios e o sopro ardente, junto com objetos de inestimável valor de uso, como baterias permanentemente carregadas – que são de inestimável valor para o complexo industrial militar.
Este espaço da Zona é inspirado no filme “Stalker” de Andrei Tarkovski, em seu livro Esculpir o tempo, Tarkovski diz “a zona é uma zona, é a vida, e, ao longo dela, um homem pode se destruir ou pode se salvar. Se ele se salva ou não é algo que depende do seu próprio auto-respeito e de sua capacidade de distinguir entre o que realmente importa e o que é puramente efêmero”, para o autor a intenção do filme era fazer com que o espectador sentisse que tudo estava acontecendo aqui e agora, que a Zona esta aqui, junto a nós.
O processo de construção do vídeo, partiu da proposta de investigação da personagem Antígone, a idéia era Antígone entrar a todo custo na Zona – que tem seu território cercado pelo exército de Tebas – para enterrar o corpo de Polinices, morto durante a guerra pelo controle da Zona. Creon não quer que ninguém ultrapasse a fronteira da Zona.”
Nessa jornada, a qual foi base de construção do vídeo, esse espaço da Zona foi pensado como essa Zona de Terapia para traumatizados da Guerra do Iraque. A proposta foi assistir o personagem Creonte nesse momento terapêutico. Para dar conta da realidade virtual, foi escolhido imagens do vídeogame “Virtual Iraq” em que uma americana comenta esse tipo de terapia pós-trauma de guerra. Em seu livro Cinema e Guerra, Paul Virilio fala “antes de serem instrumento de destruição, as armas são instrumentos de percepção, estimulantes que provocam fenômenos químicos e neurógicos sobre órgãos do sentido e o sistema nervoso central, afetando as reações e a identificação e diferenciação dos objetos percebidos”
O objeto de inestimável valor de uso para a cena, seria a bateria utilizada para fazer funcionar esses equipamentos utilizados na terapia. Quando a bateria acaba no meio da sessão terapêutica, as terapeutas utilizam o corpo morto de um soldado morto em combate, Polinices, para que Creonte relembre seus momentos traumáticos.
Para Le Bom “a guerra atinge somente a vida material dos povos, mas também seus pensamentos...e aqui voltamos a esta noção fundamental: não é o racional que conduz o mundo, mas as forças de origem afetiva, mística ou coletiva, que conduzem os homens, as sugestões arrebatadoras desta fórmula mística, cada vez mais potentes, mas ainda vaga... as forças imateriais são as verdadeiras condutoras dos combates”
Para dar conta dos elementos materiais de guerra foram pesquisadas fotos de armamentos militares na internet, desde aviões, tanques, submarino, bombas, plantas e táticas de ataque, além das imagens construímos uma instalação no espaço onde estruturamos com clones de bombas, revolveres, metralhadoras, câmeras fotográficas, filmadoras e projetores. Para Virilio “esta propriedade de tornar visível o invisível – experiência que consiste em examinar indefinidamente uma determinada imagem, encontrar um sentido ao que, a primeira vista, parece um caos de forma sem significação, estão próximas ao procedimento militar de avaliar a paisagem inimiga a partir das destruições realizadas por elementos geralmente camuflados”, assim, pensamos em criar todo um ambiente que aproximasse a experiência da guerra. Após a realização da cenas realizamos uma montagem das fotos com o vídeo, então, surgiu a idéia de acrescentar imagens do processo de criação do grupo, imagens de aquecimento, leitura de textos, ensaios e jornadas. Começamos a montagem do vídeo a partir das fotos, onde preferimos coloca-las em um movimentos acelerado em fusão com imagens de ensaio do grupo, tendo quebras e diálogo com o vídeo “Virtual Iraq”, montagem que utilizamos em projeção junto a cena. Na construção do vídeo percebemos que o acumulo de áudios sobrepostos causava um movimento de choque com as imagens, com esse acúmulo de sensações de sons e imagens, direcionamos uma narrativa ao vídeo onde futuro e presente se fundem
Doc. 9min.
O video busca a partir da leitura e discussão do texto Édipo Rei, um diálogo com o filme Édipo Rei de Pasolini. O encontro faz parte do processo de investigação de personagens do grupo II Trupe de Choque - encontro realizado 05 de Junho de 2010
Material Tebas/Eldorados/11desetembro: lemos as peças da Tetralogia Tebana, estudamos a sua forma, como o texto é dividido, procuramos fazer encenações imaginárias das peças e agora estamos lendo juntos cada peça, procurando identificar as ações do texto, as ações centrais de cada episódio, nomeando cada um e escolhendo um episodio de cada peça para trabalharmos, trazendo jornadas. Nos perguntamos/me pergunto: o que a tetralogia tebana pode dizer hoje? O que a cegueira de Édipo pode dizer do mundo hoje? O que as relações de poder explícitas e implícitas no texto podem dizer? Quais as relações entre Tebas e São Paulo?Quem são os nossos Édipos, Jocastas, Creons? E sem me anular diante desse texto, e fazendo um caminho contrário a essa anulação, primeiro devo perguntar: o que eu quero dizer pro mundo? O que eu quero dizer pro mundo através dos textos da tragédia? Como chocar, fazer ir em direções opostas ou ir de encontro o Material Tebas e a minha própria voz? E será que eu como sujeito dessa época, de subjetividade esvaziada, de desejos controlados pela mercadoria, sei o que quero dizer? (Luzimara - Integrante)
Leitura e discussão do texto Édipo em Colono
No processo anterior, a pesquisa gerou em torno da trajetória de diversos personagens trágicos e seus mitos inseridos e perpassando a narrativa de uma fábula que contava a transformação de uma antiga fábrica em shopping, numa dramaturgia em processo e pensada a partir do conceito de rizoma. Material Tebas propõe a pesquisar o universo trágico a partir da tetralogia tebana (Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígone e 7 contra Tebas) e das trajetórias dos personagens à luz de uma dramaturgia organizada sob a forma de Constelar. Nesse sentido, vejo algumas particularidades em Material Tebas: a própria estrutura dramatúrgica (de rizomática à constelar), o material de trabalho é um texto dramatúrgico que possui uma seqüência mitológica. Material Tebas vem se configurando para mim como fragmentos, como sobreposição de vários fragmentos (espaço-tempo) formando um desenho em constelações. (Marcelo Correa – Integrante do grupo)
Propostas de Cenas
ÉDITO 3 min.
No lugar das duas torres, irrompeu o vazio. O ato terrorista de 11 de setembro descosturou a paisagem e, mais ainda, abriu um rasgo na linguagem, esgarçou a ideologia, deixando ver o lado escuro do avesso do cenário. O ato terrorista interferiu na instância do olhar, que conecta a sociedade consigo mesma, e, assim, conseguiu o inacreditável: feriu o corpo de cada um, tanto daqueles a quem pôde matar sob os escombros dos edifícios como daqueles a quem, na forma de um show, alcançou como imagem. A data de 11 de setembro inaugura uma nova era, há quem diga uma nova “nova ordem mundial”, na qual a guerra é travada, antes, na dimensão do olhar. Não que a guerra como espetáculo não aconteça desde sempre. O que distingue o período presente de todos os outros é que, agora, a dimensão do olhar assume a centralidade da guerra e do terror, assim como já havia assumido a centralidade da política, da cultura, da religião e da própria economia
O Vídeo partiu de uma pesquisa realizada na investigação do personagem Édipo, onde foram pesquisadas na internet musicas que tinha como tema a mitologia grega de édipo Rei. Nesta pesquisa foi encontrada um grupo latino- americano que construíram a composição da musica em cima da história do personagem, junto a musica, que tem o canto na língua latina-espanhola foi também pesquisada a legenda dessa musica em português, o que permitiu que montasse-mos no vídeo a tradução da musica em português, também realizamos uma investigação para a leitura da musica imagens da bolsa de valores, gráficos, impressão de dinheiro e a cidade de Nova York antes do ataque terrorista, utilizamos para essa pesquisa a célula de improvisação proposta para o exercício, o qual pesquisamos o Episódio 7 de Édipo Rei
CÉLULA DE IMPROVISAÇÃO / EPISÓDIO 7/ ÉDIPO REI (proposta para improvisação de personagem)
Édipo é supervisor do TEBAS, um grande fundo de pensão internacional que reúne todos os trabalhadores das empresas sediadas no Word Trade Center. Desafiando a Esfinge, há tempos depositou todo o capital da empresa em investimentos de altíssimo risco.//
// No dia 11 de setembro de 2000, Édipo está fora do prédio conduzindo sua equipe de seguranças privados em uma investigação que buscava o assassino do antigo supervisor do fundo, Laio, morto em circunstâncias desconhecidas, notícia que, aparentemente, gerara uma queda brutal no valor das ações do TEBAS. Os funcionários das inúmeras empresas abrigadas no Word Trade Center estavam desesperados diante da possibilidade de perder suas aposentadorias e economias e ao invés de acusar a devastadora crise mundial, preferiam culpar a morte de Laio por suas perdas
Material Tebas, antigo e atual, desvendá-lo, executá-lo, transformá-lo, varias tentativas de incorporar
no corpo, atuar com Tebas o corpo responde de uma forma incompleta, uma forma que procuramos a cada ensaio. Um texto que nos apropria lentamente, como fazer, vogais, aparelhos, tecnologia, incorporar a fala corriqueira. Uma conquista a conta gotas, que sem percebermos já existe Tebas em nós.
E para que nós nos apropriamos disso tudo, a pesquisa se aprofunda e nos leva a Zizek “Bem Vindo ao Deserto do Real” – que nos levou a estudarmos o 11 de Setembro, suas causas e efeitos, o terrorismo e seu ponto de vista. (Joeli – Integrante do grupo)
No último relatório que escrevi, me fiz várias perguntas iniciais sobre o 11 de setembro – o que foi, com o que ele rompeu, como é o pós 11 de setembro...muitas dúvidas básicas sobre esse tema e uma imensa dificuldade de como transformá-lo em cena, não conseguia percebê-lo como algo próximo da minha realidade, da minha vida. A partir da leitura do livro do Zizek, algumas coisas começaram a ficar mais claras e pude perceber que esse fato histórico e todas as implicações que vem antes e depois dele tinham sim a ver com a minha realidade e mais, diziam respeito a mim enquanto sujeito. Quando, por exemplo, o autor relaciona o tema 11 de setembro à subjetividade contemporânea: todos somos mortos vivos e vivemos uma vida nua: “Quem está realmente vivo hoje? E se somente estivermos realmente vivos se nos comprometermos com uma intensidade excessiva que nos coloca além de uma vida nua?” (Luzimara – integrante do grupo)
Leitura e discussão do texto “Bem vindos ao deserto do real” de Slavo Zizek
“Aqui, a ironia última é que, a fim de restaurar a inocência do patriotismo americano, o establishment conservador americano mobilizou o principal ingrediente da ideologia politicamente correta que ele oficialmente despreza: a lógica da vitimização. Apoiando-se na idéia de que a autoridade é conferida (apenas) aos que falam da posição de vítima, ele se baseava no seguinte raciocínio implícito: “Agora nós somos as vítimas, e é isso que legitima o fato de falarmos (e agirmos) de uma posição de autoridade.” (ZIZEK, Slavoj. Bem-vindos ao deserto do real)
“Vejamos o exemplo das pessoas, geralmente mulheres, que sentem uma necessidade irresistível de se cortar com lâminas ou de se ferir de outras formas; trata-se de um paralelo exato da virtualização de nosso ambiente : representa uma estratégia desesperada de volta ao Real do corpo. Longe de ser uma atitude suicida, longe de indicar um desejo de auto-aniquilação, o corte é uma tentativa radical de (re)dominar a realidade ou, o que é outro aspecto do mesmo fenômeno, basear firmemente o ego na realidade do corpo contra a angústia insuportável do sentir-se inexistente.” (ZIZEK, Slavoj. Bem-vindos ao deserto do real) (Ligia – integrante do grupo)
Na verdade eu conclui que não estamos ou vamos precisar falar precisamente do ato: 11 de setembro, mas do que está por trás de tudo isso, o que levou a isso e como o mundo se tornou ainda mais espetacular depois dele, o quanto a democracia se abalou, a tortura se legitimou e a paranóia dos americanos contaminaram o mundo todo e contamina as nossas vidas diariamente. Percebi o quão pior a coisa pode ficar, em um mundo cada vez mais esvaziado de sentido, com um mundo sem sujeito que leva uma vida nua e espetacularizada. (Carmen – Integrante do grupo)
Pra mim é difícil pontuar o mais me chamou a atenção, mas certamente posso afirmar o que mais contribui para melhor entender e absorver conhecimento para que eu pudesse contribuir com o processo, foram sem duvidas, as citações. Através de alguns trechos selecionados da leitura que pesquisávamos para discutirmos em grupo. (Edu – Integrante do grupo)
Relatoria
Ensaio em devir
Consideramos aqui a palavra ENSAIO a partir de suas origens etimológicas que remontam à idéia de tentativa. Assim, o resultado apresentado configuraria-se como uma série de aproximações em busca dos temas investigados. Para o conceito de DEVIR, tomamos a definição de Deleuze e Guattari:
“Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se tem (...), extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, velocidade e lentidão, as mais próximas do que já estamos devindos e pelas quais a gente devém. Nesse sentido, diz-se que o devir é o processo do desejo” (Mil Platôs, Deleuze)
Apresentar um ENSAIO EM DEVIR significa instaurar um processo de desejo coletivo, em que todos os criadores do grupo e o público, sem divisão hierárquica, colocam-se como sujeitos da criação, modificando as relações e os movimentos que configuram as partículas cênicas apresentadas, sem o fechamento que o produto espetacular acarretaria. Para que esta transformação do ENSAIO EM DEVIR apresentado se concretize

O CIBORGUE : Corpo Político:
Para este projeto o corpo é a medida de todas as coisas. O corpo é produtor de valor e receptáculo de valores e condições sociais específicas. O corpo é também um projeto inconcluso, de certo modo maleável histórica e geograficamente.
A preparação corporal teve que levar em conta que o corpo é interna e externamente contraditório em virtude dos múltiplos processos socioecológicos que para ele convergem. O conjunto de atividades performativas disponíveis ao corpo num dado tempo e lugar não são independentes do ambiente tecnológico, físico, social e econômico em que esse corpo tem seu ser. E também as práticas representacionais que operam na sociedade moldam o corpo (e, mediante as formas de trajar e de se postar, propõem todo tipo de sentidos adicionais). Isso significa que toda contestação de um sistema dominante de representação vem a se tornar uma contestação direta de práticas corporais. Distinções de classe, de raça, de gênero e de uma multiplicidade de outros aspectos, como a exclusão e a repressão exercida pelo trabalho, se acham inscritas no corpo. O trabalho do ator é capaz de revelar fisicamente uma estrutura dominante carcomida, desvelando, através de ações simbólicas, sentidos antes não percebidos.
O corpo humano é também ativo e transformador em relação aos processos que o produzem. O maior objetivo da pesquisa corporal que envolve este trabalho é transformar o corpo de cada ator em um elemento funcional naquilo que poderia se chamar de “o corpo político”.
Se compreendermos que o corpo internaliza tudo que existe o inverso também é verdadeiro. Se internaliza todas as coisas, o eu pode ser “a medida de todas as coisas”. Essa idéia remonta a Protágoras e aos gregos; ele permite ver o indivíduo como uma espécie de centro descentrado do cosmos. Só se pode considerar significativamente o corpo dessa maneira quando ele é visto como aberto e poroso ao mundo.
Libertar os sentidos e o corpo humano do absolutismo do mundo produzido pelo espaço e pelo tempo cartesiano/newtonianos é central ao trabalho artístico dialético, que considera o corpo como possibilidade de emancipação. E isso significa contestar a visão mecanicista e tecnicista por meio da qual o corpo é contido, disciplinado e treinado. O objetivo desta pesquisa foi sistematizar práticas corporais necessárias à obtenção e ao treinamento do corpo político.
Enquanto a divisão do trabalho limita o desenvolvimento de todas as potencialidades do corpo, o avanço tecnológico impele o trabalhador a se revolucionar: esta contradição é central ao dilaceramento do corpo e da personalidade contemporânea. O desenvolvimento da produção capitalista envolve uma radical transformação da própria natureza do corpo que trabalha. O projeto inacabado do corpo humano é impelido num conjunto particular de direções contraditórias. E para explorar essas possibilidades foi se estabelecendo toda uma gama de ciências para planejar e explorar os limites do corpo humano como máquina produtiva, como organismo fluido. O capitalismo está e sempre esteve voltado precisamente para a produção de um novo tipo de corpo trabalhador. Os treinamentos corporais no teatro constituem mais um ramo dessas ciências produtivas e por isso importa a esta pesquisa abordar a preparação e a criação corporal de forma diferente: capaz de constituir um corpo poroso aos movimentos da realidade histórica, um corpo que se prepara para dialogar física e poeticamente com a história.
As novas relações de trabalho fizeram emergir um novo corpo humano, habitante de uma nova espacialidade, preenchido (ou esvaziado) por novos desejos. Para que o corpo dos atores possa expressar tal realidade, é preciso desenvolver e sistematizar uma pesquisa e um método de treinamento físico que possibilite a criação do que, seguindo Artaud, Gilles Deleuze e Feliz Guattari chamam de Corpo sem Órgãos:
“O Corpo sem Órgãos, quer dizer, o corpo não formado, não organizado, não estratificado ou desestratificado, e tudo o que escorria sob tal corpo, partículas submoleculares e subatômicas, intensidades puras, singularidades livres pré-físicas e pré-vitais” (Mil Platôs, vol. 1)
Este Corpo sem Órgãos deve ser o corpo capaz de se libertar de sua organização e funções cotidianas, atingindo repertórios de movimento capazes de criar imagens que simbolizem um outro corpo, agora um corpo em dissolução, em adestramento (pensemos nas ginásticas laborais e nas cirurgias plásticas, por exemplo) em esvaziamento, que é o corpo do consumidor, do trabalhador e do excluído, sob a égide do capitalismo tardio.
A partir dessas inquietações em busca de um corpo político, adotamos como preparação corporal, um exercício que estamos chamando de ciborgue, ainda em construção e em processo de pesquisa, mas que já vem nos trazendo algumas pistas. O que chamamos de ciborgue, parte do conceito de Donna Haraway, para quem o corpo contemporâneo não é mais a unidade harmônica do corpo clássico: o corpo humano hoje não é mais natureza, é acumulado de inúmeras invasões artificiais, que geram metamorfoses, invasões. Estas invasões são de diversas ordens: remédios, drogas em geral, próteses, cirurgias, anabolizantes, exercícios físicos , padrões de beleza difundidos em massa. Assim, nossos exercícios do ciborgue procuram um novo corpo, em que os órgãos surgem recriados, desestabilizados, desorganizados de suas funções.
Apresentação para o público do ensaio aberto - 29/30 de Janeiro 2011
Ensaios Ciborgues
Luzimara Azevedo
Na Trupe, durante o processo de Corpos Acumulados, trabalhamos com alguns exercícios de preparação do ator, o que utilizamos por mais tempo foi o trabalho com vendas. Fizemos muitos aquecimentos, laboratórios e vivências vendados. Esse trabalho nos levou a um registro diferente de interpretação: nos levou a sair do corpo cotidiano, a tentar aniquilar nossos vícios, a buscar formas de se relacionar com o outro. Caminhamos para o que chamamos de interpretação polifônica.
Agora, no projeto Material Tebas/Eldorados/11desetembro, ficamos no início do processo investigando o corpo marionete e já faz um bom tempo que do corpo marionete fomos para o ciborgue. Estamos fazendo os exercícios com uma mesma dupla. Isso propõe uma grande descoberta de movimentos, muitos, antes inimagináveis e que só puderam ser realizados em contato com o corpo do outro e que vão se aprofundando e se transformando a cada exercício. É como se não houvesse limite entre o meu corpo e o corpo do outro, percebo meu corpo como extensão do corpo do outro, meus órgãos respirando dentro do corpo do outro. Não sei onde começa o meu corpo e termina o corpo do outro.
O que esses corpos ciborgues podem dizer sobre hoje? Um corpo sem referencial do que é um corpo? Um corpo acoplado no outro, um corpo que só existe em função do outro? Corpo desestruturado? Corpo oco por dentro? Corpo tão cheio que não consegue se comunicar?
Apresentação para o público do ensaio aberto - 29/30 de Janeiro 2011
Ciborgue – o exercício corporal – algumas pistas:
Carmem Soares
“(...) Vocês já progrediram muito desde que iniciaram essas aulas. Os exercícios diários, regulares, começaram a desemperrar não só os músculos e as juntas que vocês utilizam na vida normal, mas também outros de cuja existência vocês nem sabiam”.
Constantin Stanislavski (A Construção da Personagem)
Algumas palavras para mim: alongamento, equilíbrio, torção, massagem, distribuição de peso, distensão, tensão, preparação corporal, criação, novas formas, possibilidade para criação de um coro contemporâneo, de um corpo contemporâneo, acoplar, somar, desorganizar, reorganizar, interação com o outro e isso implica outras palavras: respeito pelo corpo do outro, confiança dar e receber, criação coletiva.
Algumas frases:
1ª: Adotamos uma maneira de nos prepararmos corporalmente para nossos ensaios: o exercício do Ciborgue... E também de tentar entender o corpo contemporâneo... E também de exercitar o corpo deste ator, dono deste corpo contemporâneo, deste corpo que para nós hoje é o Ciborgue...
Outras: 2ª, 3ª, 4ª...Chegamos ao exercício do Ciborgue através de um conceito que o Ivan Delmanto, nosso diretor, nos trouxe. Esse trabalho foi se transformando aos poucos na sala de ensaio com a prática e na escuta: atores e diretor.
Lembro de um dia em que estávamos em duplas e muito cansados com os corpos muito doloridos. Começamos o trabalho de costas um para o outro e sentados no chão...era mais um início para a experimentação com estímulos para o corpo ciborgue: um corpo com próteses, com remédios, com silicones, com aparelhos eletrônicos, com marca passos, um corpo esquizofrênico, um corpo com metais, com elásticos, com ferros, com plásticos, com ouro, platina... várias têm sido as possibilidades e descobertas da pesquisa com esse corpo, penso que resumindo, posso dizer que se trata de um corpo que já não é nosso, um corpo justaposto por coisas extra corporais, mediado seja pelo mundo da tecnologia, da estética, da saúde, mas infelizmente como tudo é espetáculo por excelência, como disse Guy Debord no seu livro A sociedade do espetáculo, tendo a achar que estamos falando sobretudo de um corpo mediado pela forma mercadoria, que se metamorfoseia em tudo isso que citei de subterfúgios.
Pois bem, estávamos deitados de costas um para o outro, prontos a esperar pelos estímulos e para o início da pesquisa com o corpo do ciborgue. Por causa do corpo cansado, a única coisa que eu conseguia fazer era usar o corpo do outro para me alongar: “Usem o corpo do outro para alongar o seu”, “Você se alonga e ao mesmo tempo alonga o outro”, “Vocês são um corpo só que se alonga”, “O corpo do outro é a extensão do seu”, enfim, muitos foram os estímulos, para que juntos, criássemos, descobríssemos várias formas e jeitos de alongamento em dupla. Foi incrível, e muito especial. Depois de mais de uma hora em contato com o corpo do outro, criando várias formas de alongar-se e alongar o outro, o Ivan pediu que selecionássemos uma seqüência de alongamentos em dupla. Assim surgiram as seqüências de alongamento que cada dupla de ator da Trupe criou com seu parceiro.
A partir daí sempre usamos essas seqüências para iniciarmos nossos trabalhos corporais. Estamos usando um procedimento, no qual, cada dupla de atores ensina para os demais participantes do grupo como funciona a sua partitura, para que todos saibam como fazer a do outro. Estamos em uma fase de experimentação em que várias possibilidades podem continuar transformando o exercício: criar uma só partitura com partes de cada um para o grupo todo, misturar as partituras, pegar um pouco de cada um e criar uma outra... essa tem sido nossa preparação corporal, que acho se divide em dois momentos: alongamentos (que servem como preparação mesmo) e recriação (quando entra o estímulo do ciborgue e essas seqüências em dupla vão se transformando e ganhando nossas reconfigurações - parte do que é descoberto é levado para as cenas, para os personagens, o desafio é tentar não perder e transformar ainda mais dentro da cena).
Instalações e projeções de vídeos do processo em devir

ENSAIO
Jornadas, 19 de Fevereiro
As relações entre os personagens não pareceram estabelecidas: não percebe-se com clareza os objetivos e as ações físicas dos personagens. A relação desta partitura com o texto também se perde. Por quê o texto é dito? Por desejo de outrem? Que desejo? Quem deseja?
A relação com o espaço ainda parece arbitrária. Por quê aquele espaço e não outro? O que significa fazer aquela cena na igreja? Onde o público está situado? Em que o posicionamento do público contribui para que a sua cena diga algo?
Conceito de cena: o que dizer para o mundo com esta cena?
Figurinos: os figurinos ainda não constroem imagens, por estarem muito precários. Tal precariedade nos coloca em risco de encenar com um aspecto de "mal teatro infantil". Temos que continuar experimentando, mas talvez seja necessário radicalizar nas composições.
Relação com aspectos da performance: perceber-se o que houve de risco nas jornadas. Não tem-se a intervenção no espaço. O trânsito entre ficção e realidade pareceu surgir em alguns instantes, mas como as relações e os personagens ainda surgiram frágeis o lado ficcional deste movimento fica prejudicado. Como colocar o próprio corpo em questão?
Adereços: podemos utilizar o mesmo conceito para os objetos de cena: utilizar brinquedos, bagulhos degradados (como a raquete de matar mosquitos)
Havia grande variedade de recursos sonoros (para a voz do outro) mas a relação entre o ator e estes recursos ainda é limitada. Como a voz do outro INVADE HABITA TRANSFORMA o seu corpo? É possível agir a partir de diversas vozes?
Vídeo da Instalação - ensaio aberto 12 de Março 2011
http://esferalabirintica.blogspot.com/p/rizomatico-projeto-de-manutencao-do.html
Luzimara Azevedo
Esse conceito foi pensado porque estávamos com muita dificuldade de trazer jornadas. As nossas cenas não diziam nada, eram apenas tentativas vazias de “o que eu quero dizer pro mundo com essa cena?” a idéia de detrito nos deixaria mais livres para criar, para os atores trazerem pequenos esboços, rascunhos de cenas, jornadas que saberíamos que não dariam conta de tratar dos temas que queremos tratar, mas, juntos, buscaríamos olhar na nossa jornada e na jornada do outro, fragmentos que poderiam servir para falar do 11 de setembro, do material trágico, mesmo sabendo que talvez, nada encontraríamos. E, talvez, essa tentativa frustrada de dizer também diga muito sobre o sujeito do pós 11 de setembro, sobre o nosso momento histórico. Mas gostaria de ir além disso, gostaria de conseguir dizer, gostaria de não ficar andando em círculos. Como potencializar a ruína?
Um exercício que estamos fazendo no momento é o de direção das jornadas. Criamos as jornadas, os detritos em duplas, apresentamos e ela é dirigida, questionada, repensada: por que fazemos tal ação? Que relação as ações têm com o texto das tragédias? Qual relação entre a narração e a ação? Qual o objetivo dos personagens? Quem são esses personagens? Que relação eles têm? O que essa cena quer dizer? Qual a relação com o espaço? A cena é refeita diversas vezes e os atores que não participam da cena assistem a esse processo e também podem provocá-lo. Aprendemos muito ao assistir a construção da cena do outro. Percebemos o que se repete na cena do outro e na nossa cena, penso em como eu faria se estivesse na cena. Percebemos as dificuldades que perpassam a maioria das cenas. E quando estamos sendo dirigidos, enfrentamos o desafio de refazer a cena segundo as instruções e estímulos dados naquele momento e percebemos nosso corpo se modificando, as ações ganhando sentido, o diálogo, a escuta com o parceiro.
Com esse exercício, o conceito de detritos que tínhamos pensado anteriormente para as jornadas se amplia: as jornadas passam a ser detritos em movimento contínuo. Não são apenas esboços de idéias esperando por um sentido e sim cenas que se põem em transformação contínua, questionada pela própria prática de refazer e refazer, sempre provocada.
Caminhos para os detritos – idéias – Anotações no caderno:
Roda, 18/03: optamos por um caminho para trabalharmos com o material trágico: colar no texto clássico imagens contemporâneas. É o texto clássico, os personagens continuam sendo Édipo, Jocasta, Antígone... mas misturamos os tempos. Criaremos linhas de fuga. Colagens. Escrever por cima do texto trágico. Escrever com uma folha de papel seda por cima do texto original e deixar o papel seda, deixar a cópia e o original.
Roda, 25/03: explorar em Édipo em Colono: ritos de passagem (ritos de indígenas, de passagem de criança para adolescente - por exemplo - o homem vive essa experiência durante dias e nesse momento ele não é nem criança nem adolescente, é um entre); a fronteira é uma zona de entre, zona sem lei; a fronteira não existe, é um limiar – quer dizer passagem e quer dizer limite. Explorar esse conceito nas cenas, nos personagens – o personagem é e não é.
Conceito para investigarmos nas tragédias: Cortejo triunfal da cultura – a tragédia grega só existiu porque houve barbárie. Para parte dos gregos escreverem suas tragédias tinham que ter escravos trabalhando, morrendo. Eles podiam escrever porque não trabalhavam. As tragédias já nascem manchadas. A arte nasce quando nasce o Estado, quando nasce a escravidão. A arte é barbárie:
Ensaio de sexta, 24/03: Enquanto líamos e discutíamos A Compra do Latão de Brecht, na nossa frente o senhor Wilson, jardineiro do Pinel, limpava a grama do lugar. Recolhia um amontoado de sapatos velhos. Recolhia a sujeira.
Roda, 25/03: pergunta norteadora para as jornadas: o que move cada um de nós a fazer uma cena? o que me conduz a fazer uma cena, hoje, nesse instante?
Carmem Soares
Sempre, em cada época, ou quase, houve a queixa e se disse que a cultura está em vias de acabar.
A arte também.
Mas tais previsões não se verificaram.
Eram falsas? Ou eram sintomas da decadência?
Ou talvez haja na arte algo que desde a origem a faça condenada, certa condição de tal modo frágil tão distante da boa saúde que toca a moléstia incurável e a nostalgia desse estado ao qual se chega somente pela porta que conduz à morte.
Tadeusz Kantor – A morte da Arte
Ao invés de uma cena acabada, tudo aquilo que não deu certo, tudo o que nos angustia, nos avergonha, nos amedronta, nos decepciona, nos deprecia e talvez até nos diminua, mas só talvez... Apresentar o feio (sem ser belo), o rudimentar, o precário, o esburacado, o imperfeito, o deficitário, o frágil, o grosseiro, o inacabado, o torpe, o desagradável, o inseguro, o minguado, o débil, o penoso, o repulsivo, o oscilante, o morto, O ANTI-MERCADORIA... O DELICADO A SER RESSUSCITADO... .
Medo e excitação. Exposição, coragem, verdade e tentativa de aproximação com o real. Quebra. Ruptura. Morrer para Renascer.
Fernanda Faria
Olhos fechados. Ensaiamos pisando em cacos. Cada som rasgava, cada movimento cortava o ar. As vogais e consoantes se propagavam. Preocupação. Será que nossos sons cortaram os ouvidos da vizinhança? Andando no escuro sentia as árvores ofegando, os cipós pareciam me seguir aonde quer que eu fosse. Não sei quem passa por mim. Onde estão as Jocastas? Sou um Édipo cego à procura de mim mesmo e de meus pares. Penso ter ouvido vozes familiares quando alguém me puxa e me leva para longe. Paro em um lugar sem luz, sem som. Parece que alguém me observa, mas me sinto tão sozinha. Minha voz começa a se transformar, começa a ganhar contornos inusitados, graves e rasgantes. Tampo meus ouvidos, não suporto ouvir minha própria voz. Um som começa a me guiar e encontro as Jocastas. Alívio. Não estou mais só. O alívio logo é rasgado e elas me espancam. Dor. Quero saber a verdade. Eu mesma me espanco para arrancar de mim e do outro o que há de verdadeiro, para acordar do pesadelo eu me bato. Depois do exercício das vogais e consoantes ecoando na boca, começamos a trazer o texto de Édipo. No começo parecia uma heresia proferir aquelas palavras. Depois elas pareciam meu par. Quem estava de fora se sentiu desesperado em ver a dificuldade dos atores de mudar de registro. O salto veio depois.
Fernanda Faria
12/03/2011
Coma..........................................................................................................................................................
Tento abrir os olhos e não consigo. O tempo passa. Relógios se derretem de tanto o tempo passar. Acordo, como, penso, faço cenas e cenas, leio. Coma. Zona intermediária entre vida e morte. Não dá para trabalhar assim. Uma goma grossa prende meus desejos no chão. Estamos inertes. Parece que estamos enclausurados dentro de um hospício enquanto o tempo passa lá fora. Estamos enclausurados num hospício enquanto o tempo passa lá fora. Alguns ainda lutam contra o sono, mas os olhos pesam e mesmo os que parecem permanecer acordados também se cansam tentando acordar os outros. De repente nosso 11 de Setembro, nossa quebra, nosso despertar. Um tapa. O ensaio passado foi nosso pós 11 de Setembro. Todos ainda sem chão para pisar. Aquecemos, fomos para a cena e mais um tapa. O público está aí, quer ver nossas ruínas. Vamos mostrar nossa destruição. Não, vamos mostrar nossa construção. De repente de um pedaço de parede caída começou a subir uma estrutura, de uma pedra inerte um calço. O Ivan olhando cada fragmento proposto como algo a ser olhado entendido, burilado. Mais gente para o coro de bêbados. A cena vai e volta e a cada retomada a cara fica mais desenhada, mais clara. A vontade de revelar esse processo de construção para o público eternamente. A vontade do público entrar em cena.
Jornadas
Explodiu uma estrela nos meus olhos
Ligia Marina
Constelação (pedagogia, estética e modo de produção)
Na busca de uma pedagogia teatral, ela mesma, também estética, chegamos ao conceito de uma Pedagogia da Constelação. Assim o grupo pesquisa uma serie de conceitos, textos, referências, tempos históricos, textos clássicos e contemporâneos que formam entre si uma constelação saturada de estrelas que se contradizem e se iluminam ao mesmo tempo. Dentro dessa constelação coletiva a pergunta lançada é: como cada artista dentro do processo forma sua própria constelação dentro ou a partir da constelação coletiva? Como constelar a partir de todas essas referências?
Como embaralhar as estrelas para que artista, obra e público se relacionem e criem juntos um verdadeiro espaço de pensamento sobre o mundo por debaixo dos astros luminosos?? Com lunetas a mão, virar o universo de cabeça para baixo...
Jornadas
Como metodologia de pesquisa uma das ferramentas que o grupo investiga são as JORNADAS. A JORNADA seria um momento do processo em que a parte se relaciona com o todo: a parte é criada pelo todo e recria-o ao mesmo tempo, podemos trocar aqui também a palavra PARTE e TODO por indivíduo e coletivo (respectivamente).
Assim, os participantes do processo elaboram o que seria a sua JORNADA. A jornada é uma espécie de cena, de improvisação, que pode ser feita individualmente ou contando com a participação/criação de outros integrantes do processo. A JORNADA tem como princípio ser um caminho que vai-se fazendo passo a passo, como um viajante que lança-se na busca do desconhecido.
Outro princípio da JORNADA é pesquisar alguma forma de constelação: como cada integrante constela os principais tópicos de pesquisa do grupo e também lança mais tópicos de pesquisa à grande constelação?
A JORNADA já era uma ferramenta metodológica utilizada pelo grupo em outros projetos. Então, frente ao novo projeto, ao Material Tebas/ Eldorados 11 de setembro, o que dessa metodologia pode ser conservada e também negada frente ao novo conteúdo que estamos pesquisando?
Frente a essa pergunta foi lançada à JORNADA o desafio de ser um espaço de apresentação de fragmentos de idéias, ruínas, vestígios, peças de um quebra-cabeça a ser montado pelo todo, a ser entendido e recriado através de investigação intensa, ligando assim metodologia de trabalho com conteúdo de pesquisa: somos todos Édipos em busca da representação e mudança da cidade em peste, somos todos Édipos tentando entender através de uma imagem cênica seu lugar no grupo, seu sentido de estar no mundo.
Método para construção de personagens e jornadas
Novembro de 2010 a Janeiro de 2011
Anotações para um novo método de construção de personagem:
1. Começamos com a pesquisa do MARIONETE e do CIBORGUE como modos de imprimir na pesquisa corporal do grupo os estudos sobre a Sociedade do Espetáculo.
2. Seguimos com essa pesquisa e acrescentamos a ela a noção de AVATAR:
“Essa palavra Avatar se tornou popular entre os meios de comunicação e informática devido às figuras que são criadas à imagem e semelhança do usuário, permitindo sua "personalização" no interior das máquinas e telas de computador. Tal criação assemelha-se a um avatar por ser uma transcendência da imagem da pessoa, que ganha um corpo virtual, desde os anos 80, quando o nome foi usado pela primeira vez em um jogo de computador. Mas a primeira concepção de Avatar vem primariamente dos textos Hindus, que citam Krishna como o oitavo avatar - ou encarnação - de Vishnu, a quem muitos Hindus adoravam como um Deus.”[1]
3. A partir do Seminário com Isleide Fontenelle acrescentamos aos nossos estudos de construção de personagem o seguinte conceito: “Eu-autônomo” – eu-consumidor – consumidor responsável: CULPA, VITIMIZAÇÃO, REDENÇÃO, HIPERRESPONSABILIZAÇÃO – consumidor com medo da exclusão do espetáculo;
4. Então, para a pesquisa deste novo EU, da subjetividade do EU-AUTÔNOMO, de um novo método de ator, pesquisaríamos as seguintes palavras: Desejo; Angústia; Culpa (quais são os desejos de redenção); Fantasias; Quais as estratégias de governo de si? R.: Impondo máscaras para viver na lógica do Capital.
5. Se Stanislavski, na sua construção de um método de ator que revelasse a subjetividade de sua época, dialogava com as teorias do sujeito de Freud, a II Trupe de Choque, para estudar e a subjetividade de sua época, toma emprestado um termo do psicanalista Lacan: o OBJETO A:
“Um dos mais populares produtos de chocolate à venda em toda a Europa é o chamado "Kinder Surprise" (no Brasil, Kinder Ovo), ovos ocos feitos de chocolate e embrulhados em papel colorido: depois de desembrulhar o ovo, quebra-se a casca de chocolate e se descobre no interior um pequeno brinquedo plástico (ou pequenas partes com as quais se monta um brinquedo). A criança que compra esse ovo de chocolate em geral o desembrulha nervosamente e apenas quebra o chocolate, sem se importar em comê-lo, interessada somente no brinquedo em seu interior. Esse apreciador de chocolate não é o exemplo perfeito de Lacan "Eu o amo, mas inexplicavelmente amo alguma coisa em você mais do que você mesmo e portanto o destruo"? E, efetivamente, não é esse brinquedo o que Jacques Lacan chama de "l'objet petit" (objeto a) em seu sentido mais puro, o pequeno objeto que preenche um vazio central, o tesouro oculto, "agalma", no centro da coisa que desejamos?”[2]
Anotamos assim que para estudarmos essa subjetividade contemporânea do objeto a continuaríamos pesquisando o personagem-ciborgue com as seguintes perguntas: Qual objeto a move o seu personagem? O que querem que eu deseje? O que querem que seu personagem deseje? Personagem com um vazio INOMINÁVEL.
6. A partir dos estudos do filosofo Slavoj Zizek definimos também outros conceitos norteadores para a construção do personagem que reflita a subjetividade contemporânea:
MORTO-VIVO/HOMO-SACER/MULÇUMANO/SUJEITO-DESSUBJETIVADO
“Ele (Giorgio Agamben) conclui diretamente a existência do Holocausto a partir de seu “conceito” (noções tais como os “mulçumanos” mortos-vivos são tão “intensas” que não poderiam existir sem o fato do Holocausto) – (...). Agamben se refere às quatro categorias modais (possibilidade, impossibilidade, contingência e necessidade), articulando-as ao longo do eixo de subjetivização-dessubjetivização: possibilidade (ser capaz de ser) e contingência (ser capaz de não ser) são operadores da subjetivização; ao passo que impossibilidade (não ser capaz de ser) e necessidade (não ser capaz de não ser) são operadores da dessubjetivização. (...) a subjetividade (a abertura do espaço de contingência em que a possibilidade tem mais importância que a realidade) desaba na objetividade, em que se torna impossível as coisas não seguirem a necessidade “cega”. Para entender essa questão, devemos considerar os dois aspectos do termo “impossibilidade”: primeiro, a impossibilidade como o simples necessidade (“não poderia ter sido de outra forma”); então, a impossibilidade é o limite último impensável da própria possibilidade (“uma coisa tão impossível não poderia acontecer; ninguém pode ser tão mau”).”[3]
Também nós fizemos as seguintes perguntas: Qual o engajamento libidinal fantasmático o “11 de setembro” gerou em todos? Que sujeito é esse que CONTEMPLA o “11 de setembro”?
Construção de Pressupostos para as Jornadas
09.12.10
Estabelecemos como um dos modos de trabalho com os quatro textos trágicos de nossa pesquisa: NÃO DECORAR O TEXTO. Para tanto utilizaríamos dispositivos de texto, que serviriam como uma espécie de PONTO (como nos antigos Teatros de Revista), ou como VOZES do OUTRO que moldam nossos próprios desejos. Seriam esses dispositivos: aparelhos de MP3; gravadores; celular; o próprio texto na mão do ator; ler o texto para o outro dizer; texto projetado; público com texto na mão; a inventar.
10.02.11
1. Pesquisar a fronteira entre Ficção e Realidade;
2. Intervir no espaço IMPERMEÁVEL (mudar a percepção que se tem daquele determinado espaço);
3. Explorar maneiras de mostrar a voz do OUTRO na nossa própria voz, no nosso próprio corpo e desejos;
4. Explorar o RISCO (para isso estudar o texto “Em defesa del arte del performance” de Guillermo Gomes Peña)
11.02.11
. Proposta de pesquisa em figurino
Explorar: Detritos de figurinos da indústria cultural; Mundo infantil (Xuxa, Jaspion, etc.); Funk; Figurinos que investiguem a fronteira entre o sensual e o infantil; Brega; Colorido, neon; Exploração de sapatos de salto alto e plataformas como forma de remeter aos coturnos utilizados pelos gregos em suas encenações de cerca de 2.500 anos atrás. Sobreposição, justaposição de referências.
12.02.11
Definimos também como uma possível METODOLOGIA para a criação de jornadas em dupla a partir do Episódio 7 de Édipo Rei:
1. Retomar as análises de texto previamente realizadas coletivamente (sobretudo a definição das ações centrais e dos títulos poéticos de cada episódio de cada uma das tragédias);
2. Resgatar a prática do improviso para a formação das cenas;
3. Direção da cena logo em sua gestação;
4. Criar o CONCEITO a partir da cena.
Escrito por Shikai, participante do Detritos em Ensaio do dia 09 de 2011.
Passava eu pela praça Tico-Tico. Enquanto à rumo pelos fundos do Pinel, Em casa alheia lá em casa eu me sentia. Se alma alguma feito ser normal me via! Guiado fui por uma casa um tanto insana. Cuja as paredes derramaram poesia. De sábios e embriaguados versos sóbrios. Que de tão bons pra mim sentido algum faziam; Então a tola e hesitante fera minha
Que a muitos egos e vontades dormia, Libertou-se e fez de mim quem eu era... Nada que fui ou que sou, Coisa talvez que eu seria.(...)
Fui Creonte, e aos meus braços veio Antígona. Cuja morte, relutante a celebrar;
Bem recordo, que suas mãos estavam frias, E um poema estava triste ela a cantar:
"Este reino não é meu. E nem nunca será... Este reino não é meu. E nem nunca será..."
Curioso, lembro, que em tal celebração. Incomum fogueira ardia. Em louvor a São João!
E guiei, ao fogo, Antígona, Pra aquecer seu coração. Que amedrontado batia. Em esquiva situação; Fosse por mais, morrer com vida. Era o terror insuperável! Morrer sem dor, com paz se diga, Mas era o Hades inevitável! Voltando a cova, já definida. Novamente veio a cantar; "Hora de dizer adeus, É hora de partir... A Lua está aqui, Quer se despedir de mim..." (texto completo no site http://fanfiction.com.br/historia/150009/Pinel/capitulo/1)
Julho/2011
Materia Jovem Pan - On line
A Cia de Teatro “II Trupe de Choque”, que está a onze anos na ativa, desenvolveu um projeto teatral dentro do Hospital Psiquiátrico Caism Philippe Pinel. O espetáculo "Material Tebas/Eldorados 11 de setembro" mostra o processo criativo ao público para apresentar não uma peça teatral, mas os seus “detritos”, todo material artístico fracassado, mal resolvido e mal acabado criado até agora. Nesta terceira parte do Espaço Online, a atriz Amanda Cavalcante fala sobre a experiência de dividir o espaço do hospital psiquiátrico com os pacientes. Confira também a primeira parte da entrevista e a segunda.
Demais partes da entrevista no endereço:
http://jovempan.uol.com.br/videos/pea-da-cia-tem-hospital-psiquitrico-como-cenrio-58793,1,0
http://jovempan.uol.com.br/videos/atriz-mostra-algumas-cenas-da-montagem-teatral-58792,1,0
Junho/2011
Relatórios individuais Junho / 2012:
GESTAR OS DETRITOS - POR FERNANDA FARIA
http://trupedechoque.com.br/blog/gestar-os-detritos/
NO LUGAR DE UM PRÓLOGO - POR MARCELO DOMINGUES http://trupedechoque.com.br/blog/no-lugar-de-um-prologo/
A ABORDAGEM DO MATERIAL BRASIL - POR RICARDO SEVERINO http://trupedechoque.com.br/blog/a-abordagem-do-material-brasil/
UM EPÍLOGO DRAMÁTICO - POR CARMEM SOARES
http://trupedechoque.com.br/blog/um-epilogo-dramatico/
LIMIAR-FRONTEIRA: PASSAGEM LIVRE - POR Luzimara Azevedo http://trupedechoque.com.br/blog/limiar-fronteira-passagem-livre/
NOTAS - POR JOELI MONTEIRO
http://trupedechoque.com.br/blog/notas/
ENSAIO SOBRE O TRÁGICO, DE PETER SZONDI - POR ANDERSON FERREIRA http://trupedechoque.com.br/blog/sobre-o-ensaio-sobre-o-tragico-de-peter-szondi/
ESBOÇO I - POR SANSORAI
http://trupedechoque.com.br/blog/esboco-i/
QUANDO NÓS, OS MORTOS, DESPERTARMOS! - POR LIGIA MARINA http://trupedechoque.com.br/blog/quando-nos-os-mortos-despertarmos/
MATERIAL CIBORGUE, MATERIAL E OS MATERIAIS - POR MARCELO CORREIA http://trupedechoque.com.br/blog/material-ciborgue-material-e-os-materiais/ Hipermidia
Confira outros textos no endereço http://esferalabirintica.blogspot.com.br/p/textos.html











